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| Roberto Segre |
| "Em
geral, a crítica brasileira tem uma visão
muito restrita do movimento moderno" |
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ROBERTO SEGRE não
é Brigitte Bardot, mas também acaba de completar
70 anos. Não é Che Guevara, mas também
foi criado na Argentina e esteve em Cuba. Ele possui uma vida
movimentada, que se inicia na Itália, passa pelos territórios
argentino e cubano e, agora, pelo Brasil, onde dá continuidade
a uma carreira dedicada ao ensino e à pesquisa em arquitetura. |
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"Não existem livros
de críticos brasileiros de arquitetura falando do mundo,
da América Latina. Um pouco de interesse surgiu quando
as revistas começaram a publicar obras
latino-americanas" |
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Capa do livro sobre jovens arquitetos
brasileiros, recém-lançado por Roberto
Segre. Na publicação são destacados
48 escritórios de arquitetura |
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Nascido em Milão,
Itália, em 1934, Roberto Segre tinha apenas cinco anos
de idade quando sua família se exilou na Argentina,
por motivos políticos. Lá ele se formou arquiteto
em 1960, na Universidade de Buenos Aires, onde foi, entre
1957 e 1962, professor assistente. Aos 29 anos mudou-se para
Cuba, e permaneceu na ilha até 1994, lecionando história
da arquitetura e urbanismo na Universidade de Havana.
Nas décadas de 1980 e 1990 foi professor visitante
de universidades de vários países, como México,
Estados Unidos, França, Espanha e Brasil - aqui, na
pós-graduação da FAU/USP. Em 1994, mudou-se
para o Brasil a convite da UFRJ, onde coordena o Programa
de Pós-Graduação em Urbanismo (Prourb).
É pesquisador do CNPq.
Entre os livros que publicou estão Two faces of the
Antillean metropolis, América Latina fim de milênio,
Arquitetura brasileira contemporânea e o recém-lançado
Jovens arquitetos. Nesta entrevista a PROJETO DESIGN, Segre
relata um pouco de sua trajetória e analisa a situação
da crítica e da arquitetura atuais. |
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| FORMAÇÃO |
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| O senhor nasceu na Itália. Quando
e por que seus pais imigraram para a Argentina? |
Minha família é judia e
meu pai era antifascista. Ele era economista, e colaborava
com uma revista onde escreveu artigos contra Mussolini.
Por isso, foi condenado a cinco anos de confinamento num
povoado no sul da Itália. Um juiz trocou a condenação
por exílio.
Partimos no último navio em que deixaram sair judeus:
depois dele, só clandestinamente. Tínhamos
parentes no Brasil, mas meu pai escolheu a Argentina porque
um tio nosso morava lá desde os anos 1920.
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| Por que a opção pela arquitetura? |
Meu pai gostava de arte e literatura,
era um intelectual. E conseguimos trazer da Itália
uma biblioteca enorme. Sempre gostei de história,
mas um professor me disse que, se eu me tornasse historiador,
morreria de fome. “Faça algo mais prático”,
ele aconselhou. No último ano do colégio
me entusiasmei com um curso de história da arte.
Um dia, um amigo me falou de
um italiano que daria uma palestra sobre arquitetura.
Foi em 1952, e o italiano era Bruno Zevi! Eu
não sabia nada sobre arquitetura e fiquei impressionado.
As palestras dele eram cenográficas. Quando terminei
o colégio, meu pai sugeriu que eu fosse para Roma.
Lá assisti a todas as aulas de história
da arte que pude.
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| E como foi a volta a Buenos Aires? |
Depois de quatro meses, voltei e entrei
na faculdade decidido a ser historiador de arquitetura.
Nunca tive o desejo de ser projetista. Eu sabia tudo sobre
o Fórum Romano e já me conheciam no departamento
de história.
Minha primeira aula foi em janeiro
de 1957, falando sobre Leonardo da Vinci para 400 alunos
- nunca vou esquecer o nervosismo. Então
comecei a trabalhar na faculdade. Associei-me a grupos
de esquerda e participei das lutas estudantis antes da
queda de Juan Perón. Quando ele caiu, os reformistas
- uma espécie de esquerda comunista - assumiram
o poder do centro estudantil, e eu me tornei secretário
de cultura.
Organizei palestras e exposições, e fazíamos
pequenas publicações, como alguns capítulos
de um livro de Siegfried Giedion, com tradução
minha.
Nessa época, comecei a
me preocupar com o conteúdo social da arquitetura.
Em paralelo, montei um escritório de desenho gráfico
e fiz algumas obras de arquitetura, como uma rodoviária
no interior da Argentina.
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| CUBA E ARQUITETURA |
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| Como o senhor foi parar em Cuba? |
Um amigo, do Partido Comunista Argentino,
que tinha sido enviado para Cuba, me perguntou se eu gostaria
de ir para lá. Fiquei surpreso, porque Cuba precisava
de médicos, engenheiros etc., mas o que um historiador
de arquitetura faria lá, em 1962?
Acontece que o principal historiador da arquitetura cubana,
Joaquín Weiss, se aposentara depois de 30 anos,
e não tinha ninguém para ministrar aulas.
Mas antes fui para a Europa: fiquei dois meses em Roma,
onde tive aulas com Giulio Carlo Argan, e um mês
em Milão, para assistir às aulas de Ernest
Roger, que me pediu para fazer um número sobre
a Argentina para a Casabella Continuittà.
Voltei então para a Argentina e preparei esse material,
meu primeiro trabalho internacional, publicado em 1963.
Em seguida, fui para Cuba.
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| Quanto tempo o senhor permaneceu em
Cuba? |
Morei lá
por 31 anos. Quando cheguei, não havia debates:
os arquitetos com dinâmica cultural tinham fugido
para Miami, os que ficaram eram muito jovens.
O único arquiteto-intelectual que tinha nível
era Fernando Salinas, que se tornou meu interlocutor para
debater arquitetura.
Na escola, me disseram que o departamento de história
era meu e poderia fazer o que quisesse. Mudei completamente
a estrutura do curso, eliminei todas as coisas antigas:
Grécia, Egito, Roma, Índia, Japão.
A disciplina tinha que estar mais ligada à realidade
da época, aos problemas do mundo moderno. Sempre
fui historiador do mundo moderno, nunca do período
colonial.
Minhas fontes eram Le Corbusier,
Frank Lloyd Wright, Giedion. Depois fiquei
amigo de Reiner Banham, figura muito importante na minha
formação, mais voltado para o mundo da ciência.
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| Quando começou seu envolvimento
com a arquitetura da revolução cubana? |
Foi em 1966 que comecei a observar o
que estava acontecendo. Em 1967 escrevi o primeiro texto
sobre a arquitetura da revolução, publicado
em Montevidéu. Mas desde 1965 era secretário
de redação da revista Arquitetura Cuba,
que era mensal e existe até hoje.
Atualmente, a revista é dirigida por Eduardo Luiz
Rodriguez, um jovem muito talentoso, que tem um único
problema: quer me apagar da história
da arquitetura cubana. Isso é um problema de geração.
Os jovens acham que fui representante do sistema.
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| Por quê? |
Os jovens agradecem o que lhes ensinei,
pois só conhecem a arquitetura moderna pelos cursos
que ministrei. Mas eu sempre valorizei o pré-fabricado.
Não me perdoam porque
em meu livro Arquitetura na revolução cubana,
publicado em 1970, fiz uma dura crítica à
Escola de Arte, que, na realidade, vai ser
sempre o grande ícone da arquitetura da revolução
cubana, com aquelas cúpulas de tijolos. Não
era uma crítica à obra, nunca disse que
ela era ruim.
Fiz uma análise ideológica, dizendo que
a obra representava valores do mundo capitalista, do arquiteto-estrela,
que era caríssima e complexa. Eu achava que naquele
momento, em que as condições da sociedade
eram muito precárias, precisávamos de escolas
e casas camponesas, que o dinheiro deveria ser gasto em
obras mais modestas por todo o país. Não
me perdoam isso, mas reconheço que fiz uma crítica
dura demais.
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| Qual a situação dos arquitetos
em Cuba? |
Os anos 1960
foram de grande efervescência, os jovens tinham
muito trabalho, porque os mais velhos haviam saído
de Cuba. A dinâmica desse período foi rígida
e mais relacionada com a idéia de tecnologia e
desenvolvimento do pré-fabricado.
Nos anos 1970, alguns
tiveram a chance de criar, mesmo dentro do sistema, para
tentar fazer uma arquitetura mais original. Há
obras muito interessantes dessa época, com liberdade
dentro do parâmetro do pré-fabricado, mas
esse período foi cinza na cultura cubana, que se
apoiou no realismo socialista. Nos anos
1980, começou uma abertura interessante,
tanto na arte como na arquitetura.
Com a crise dos anos 1990, a
crise do socialismo, a economia cubana paralisou-se e
as construções também.
Um número considerável dos jovens arquitetos
saiu do país. Na realidade, a situação
da arquitetura cubana é muito precária.
Minha vinda para o Brasil coincide com um momento em que
a minha função de crítico e historiador
ficou enfraquecida.
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| Na década de 1980 o senhor ficou
um semestre na Universidade Colúmbia. Não houve
problema em sua entrada nos Estados Unidos? |
Não: sou ítalo-argentino,
não cubano. Em Colúmbia, dei um curso de
arquitetura latino-americana. Eu já era conhecido
na América Latina, pois aparecia muito em revistas
latino-americanas. Desde os anos 1970 sou convidado para
dar palestras onde não há ditadura: Venezuela,
Colômbia, México.
Quando Cuba e Brasil reataram relações diplomáticas,
passaram a me convidar todos os anos para congressos aqui.
Depois, publiquei alguns livros no Brasil, como América
Latina fim de milênio, e artigos na PROJETO.
Eu já conhecia os grandes
arquitetos brasileiros desde os anos 1960, quando passei
um mês no Brasil: Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da
Rocha, Vilanova Artigas e Niemeyer. Meu primeiro
texto sobre a arquitetura brasileira, em 1963, saiu publicado
na revista Nossa Arquitetura.
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| ARQUITETURA NO BRASIL |
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| Como surgiu o convite para vir dar aulas
no Brasil? |
Já na década de 1990, quando
Luiz Paulo Conde era diretor da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
foi solicitado ao reitor da Universidade de Havana que
eu passasse dois anos no Rio de Janeiro, para ajudar no
novo departamento de pós-graduação.
Eles me deixaram sair e entrei na UFRJ. Fiquei mais dois
anos, para fazer um doutorado brasileiro. Permaneci no
Prourb, como colaborador, e entrei no sistema acadêmico
brasileiro. Mas continuo sendo professor da faculdade
de arquitetura de Havana.
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| E como o senhor se define? |
Eu tenho formação italiana,
estudei autores e livros italianos. Do ponto de vista
prático, minha formação universitária
é argentina. E quando comecei a elaborar as idéias,
e me expressar como crítico e teórico, meu
pensamento amadureceu em Cuba.
Lá comecei a participar da revolução
cubana, compreender a utopia de fazer o socialismo, criar
uma nova sociedade, toda a visão da arquitetura
como utopia futura, com a imagem de uma sociedade mais
justa. Como o socialismo não deu certo, aquelas
não eram apenas idéias socialistas, são
muito relacionadas ao capitalismo.
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| Quando o senhor começou a mudar
de idéia? |
Em Cuba, quando entrei em contato com
os jovens da geração de 1980. Eles me criticavam
duramente por causa da minha postura. A crise dos anos
1980 coincidiu um pouco com o pós-modernismo, mas
não é somente pós-modernista. Percebi
que minha visão era muito limitada e rígida.
A partir daí comecei a valorizar também
a Escola de Arte, verifiquei que tinha cometido um grande
erro com aquela avaliação tão dura.
Escrevi um texto muito longo criticando o pós-modernismo,
fui um dos primeiros a fazer isso. Sempre fui um pouco
distante dessas expressões mais livres, dos arquitetos
relacionados com o surrealismo, por exemplo. Na formação
do socialismo temos a visão do mundo de forma homogênea,
uma realidade de princípios universais - o que
é um grande erro. Toda essa visão marcou
meu relacionamento com a arquitetura e a arte.
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| Nesses últimos dez anos, o que
o Brasil mudou em sua vida? |
Eu me inseri no Brasil com completa naturalidade.
Conhecia os arquitetos e a realidade brasileira do ponto
de vista social e econômico. Ministrei muitas aulas
de arquitetura brasileira em Cuba.
O Brasil nunca foi um país
estranho para mim. Conhecia os trabalhos escritos de [Hugo]
Segawa, [Carlos Eduardo] Comas, Nestor Goulart. A
primeira pesquisa que fiz para o CNPq foi uma comparação
na evolução do período colonial entre
Rio de Janeiro e Havana. Era um estudo sobre climas, problemas
de ambiente.
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| Qual sua opinião sobre a arquitetura
brasileira? |
Não sou radical como outros críticos
de arquitetura brasileira. Comas, [Edson] Mahfuz e Segawa
são os mais duros. Em
geral, a crítica brasileira tem uma visão
muito restrita do movimento moderno. A arquitetura
moderna brasileira teve origem no Estado, seu cliente
na época Vargas.
Ao mesmo tempo, os ricos, que
podiam não apoiar Vargas, gostavam das obras que
estavam sendo feitas. Niemeyer, Lucio Costa e Artigas
tinham clientes ricos. Atualmente, só estes é
que promovem arquitetura: o Estado sumiu. Meu
livro sobre os jovens arquitetos brasileiros, por exemplo,
parece um livro de residências.
Trata-se de um problema grave: o Estado não se
interessa em promover arquitetura de bom nível.
As poucas obras para o governo - como no Rio de Janeiro,
por exemplo - não têm continuidade. Se Luiz
Paulo Conde e César Maia tivessem uma política
comum, coerente, os bons arquitetos continuariam trabalhando.
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| O senhor se sente mais confortável
em falar sobre o que acontece na América Latina ou
a respeito da produção da Europa e dos Estados
Unidos? |
Tenho obsessão por estar sempre
informado e procuro não ter uma visão puramente
regionalista. Marina Waisman e Enrico Tedeschi - um italiano
que viveu na Argentina e é autor de vários
livros - também escreveram muito sobre o que acontecia
no mundo.
O Brasil, ao contrário,
sempre teve uma visão muito local: não existem
livros de críticos brasileiros falando do mundo,
da América Latina. Agora, parece que
Segawa escreveu uma obra sobre a América Latina.
A única vez que os brasileiros entraram em um debate
internacional foi quando houve aquela crítica do
Max Bill, mas não foi uma reação
para estabelecer o diálogo, e sim para se defender.
Meu livro América Latina fim de milênio não
é usado em nenhuma universidade, ele tem mais de
dez anos e nunca se esgotou. Nos meus textos, o Brasil
sempre esteve integrado no contexto latino-americano.
A América não tem fronteiras para mim.
Aqui no Brasil não é assim. Aqui ninguém
sabe nada do que aconteceu em Cuba, mas lá se estuda
a arquitetura brasileira, que é bem conhecida em
toda a América Latina. Aqui, um pouco de interesse
apareceu quando as revistas começaram a publicar
obras da América Latina. É curioso que seja
assim num país grande como o Brasil.
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| Mas o senhor não acha que é
por isso mesmo? |
O Brasil nunca teve influência
arquitetônica européia tão forte como
a Argentina. O movimento modernista brasileiro começou
com um grupo de vanguarda, esse grupo não teve
um teórico.
O grande teórico era Lucio Costa, que sempre escrevia
textos para justificar como o modernismo era brasileiro,
não era importado, e falava do relacionamento com
a arquitetura colonial brasileira, a influência
de Diamantina, da arquitetura mineira etc.
Os livros que mais difundem a arquitetura brasileira em
geral, fora o de Henrique Mindlin, são estrangeiros:
o Brazil builds, norte-americano, e o do francês
Yves Bruand. Na geração mais recente, dos
anos 1980, apareceu um grupo de brasileiros que entra
no diálogo internacional - como Segawa, Comas,
Ruth Verde Zein e Lauro Cavalcanti -, mas ele continua
trabalhando basicamente sobre o Brasil.
Na Argentina não é assim. Ramon
Gutierrez escreveu a única grande história
da arquitetura latino-americana ainda em circulação.
Outros que se relacionam com o mundo são Marina
Waisman e Francisco Liemur. Este escreveu muitos textos
nesse espelho entre América Latina e Europa nos
anos 30 e 40. Esse tipo de estudo não se desenvolveu
no Brasil.
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| Como o senhor vê o panorama atual
do que acontece na Europa e Estados Unidos? |
É uma arquitetura formalista,
que na América Latina não tem a mesma repercussão.
Quem são os arquitetos latino-americanos do jet
set?
Clorindo Testa quase não se interessa, e para ele
não importa nada o jet set. [Mathias] Klotz tem
uma linha minimalista e severa, com repercussão
na Europa, mas ele não é uma personalidade
com raízes na tradição latino-americana.
Na América Latina, esse formalismo aparece no Brasil
com Oscar Niemeyer.
A arquitetura paulista não
segue essa linha. Ela se formou no relacionamento forte
entre o mestre e discípulos, dentro da universidade
e dos escritórios. Há bom relacionamento
entre os arquitetos, não há brigas, nem
grupos, não há rixas ideológicas.
Hoje, os discípulos são pessoas como [Angelo]
Bucci, [Vinícius] Andrade e [Marcelo] Morettin,
entre outros. É uma linha de minimalismo, rigor
construtivo, simplicidade nas formas, bem coerente.
Já a história da
escola carioca é um tema que deveria ser mais discutido.
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| Niemeyer não faz parte dessa
escola? |
Ele continuou representando a escola
carioca dos anos 1950 até agora. Os prédios
feitos nos últimos 20 anos não têm
nenhuma significação. A escola carioca se
formou em um trabalho profissional muito forte, muita
produção arquitetônica, construíram
muita coisa até os anos 1950. A universidade sempre
esteve fora desse grupo de vanguarda.
Primeiro houve a crise com Lucio Costa, e a partir desse
momento a reação ao conservadorismo sempre
dominou a arquitetura. Os líderes do movimento
moderno nunca tiveram grande influência. A história
da arquitetura começa a se liberar um pouco dessa
tradição depois da ditadura militar, com
Luiz Paulo Conde e outros.
Fora aquele período nos
anos 1930, Lucio Costa nunca foi professor, e tanto ele
como Niemeyer nunca tiveram escritórios.
Costa trabalhava no Iphan e fazia suas coisas em casa,
e Niemeyer passava para outros escritórios.
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| E ninguém critica Niemeyer. |
Todos têm
medo de tocar nesse tema. O único que
o fez foi Otávio Leonídio, em um texto que
saiu na revista Bravo. Acho que falta um pouco de capacidade
para assimilar a crítica. Se alguém faz
um texto de que não gosto, digo: “Olha, você
tem uma visão que não é compatível
com a minha”.
Meu livro Arquitetura contemporânea tem um texto
crítico, a minha visão do que aconteceu
na arquitetura brasileira. Não é a mesma
visão de Comas ou de Ana Luíza Nobre. Por
que nenhum deles diz “Olha, Segre, você não
é daqui, sua primeira contribuição
brasileira é essa...” ?
As revistas deveriam exercer
essa função crítica. Nos livros,
que são mais permanentes, é mais difícil
fazer polêmica. A academia é mais
tradicional, e ali não há publicações
controversas. As revistas deveriam ser polêmicas.
Na Europa, as revistas de arquitetura são assim.
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| Por fim, um tema menos polêmico:
quais os planos para os 70 anos? |
Em primeiro lugar, vou terminar a pesquisa
que estou fazendo há três anos, sobre o MEC.
É um trabalho profundo. Queria, depois deste livro
sobre os jovens arquitetos brasileiros, fazer uma publicação
semelhante sobre a América Latina.
Dizem também que eu deveria escrever uma autobiografia,
mas para isso é preciso ter tranqüilidade
na vida, e eu ainda não a possuo. Tenho muitas
coisas a fazer. Escrevo muito, recebo solicitações
e trabalhos todo o tempo, diversos convites.
Acho que os 70 anos, para mim,
não são uma fronteira. A fronteira
seria se fosse mandado embora e não tivesse mais
trabalho, mas ela seria apenas econômica, não
intelectual.
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Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 297 Novembro de 2004 |
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