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| Guinter
Parschalk |
"Sinto que existe certa tendência
para essa luz
que eu não diria brasileira,
mas mais tropical" |
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Depois de trabalhar com
artes plásticas, design e arquitetura, entre outras
áreas, Guinter Parschalk conheceu mais de perto
o mundo da luminotécnica. Há mais de 15
anos, dedica-se a desenhar luminárias e fazer projetos
de iluminação. Ele, no entanto, não
gosta de ser rotulado de luminotécnico e afirma
que sua criatividade é movida pela percepção
visual. |
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Nem sei se existe a possibilidade
de fazer um apanhado da luminotécnica brasileira:
ainda é muito cedo. Mas, por fazer projetos aqui
e no exterior, percebo que existem questôes de gosto
e aptidôes |
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| “Quero sempre
romper limites, abrir porteiras.” É dessa forma
que Guinter Parschalk pretende agir: na vanguarda, à
frente de seu tempo. Arquiteto formado em 1978 pela Universidade
Brás Cubas e com pós-graduação
em desenho industrial na Hochschule für Künstlerische
und Industrielle Gestaltung, em Linz, Áustria,
Parschalk atuou como designer na Siemens e na Schlagheck
& Schultes Design, em Munique, Alemanha. Atualmente,
dirige o Studio Ix, escritório especializado em
percepção visual e luminotécnica,
que desenvolve projetos no Brasil e em outros países,
entre os quais Argentina, México, Peru, Israel,
Alemanha e Estados Unidos. Poucos dias antes da abertura
da exposição Technokitsch, no Museu da Casa
Brasiliera, em São Paulo - na qual estão
expostas luminárias que combinam a tecnologia da
reflexão com objetos populares, de uso cotidiano
-, Parschalk deu esta entrevista para PROJETO DESIGN,
nos jardins do museu, sentado em um dos bancos brutos
de madeira criados por Hugo França, também
expostos no MCB. |
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| Como surgiu seu interesse pela luminotécnica? |
O mote da minha vida é a percepção
visual. A luminotécnica foi uma circunstância,
que aconteceu há 15 anos, quando estava preparando
uma exposição. Minha idéia era
selecionar algo que discutisse a identidade cultural
brasileira, utilizando objetos indígenas. Queria
debater a brasilidade em contraponto à contemporaneidade.
Inicialmente, pensei em contrapor ao indígena
os equipamentos de informática: computadores,
processadores de dados, monitores etc. Para isso,
era necessário muito dinheiro e eu não
tinha verba para bancar. Cheguei quase automaticamente
na iluminação como a forma de fazer
esse contraponto: índio não tem luz
artificial. Então, os representantes contemporâneos
acabaram sendo objetos luminosos, abajures, luminárias.
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| Onde foi essa exposição? |
Foi na Arquitetura da Luz, na rua
Mourato Coelho, em São Paulo, em um galpão.
A partir daí, aproximei-me da iluminação
e da luminária, embora não pretendesse
trabalhar nessa área. Mas logo depois veio
o plano Collor. Meu escritório só prestava
serviços de projeto e design. De um dia para
o outro havia apenas 50 reais na conta bancária
e os clientes me dizendo para ligar depois de seis
meses, deixando tudo para mais tarde. Eu pensei que
se vinculasse meu trabalho a produtos seria mais fácil
vender do que só prestando serviços.
Antes, quando as pessoas me perguntavam se eu fazia
luminárias e projetos de iluminação,
respondia não. Com o plano Collor, passei a
dizer sim: costuro, chuleio, pinto e bordo.
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| Mas antes disso você já
fazia projetos de arquitetura e design, não? |
Sim, mas sem vínculos com
iluminação. Já havia projetado
algumas luminárias, mas era a mesma coisa que
desenhar um banco ou uma mesinha: fazia parte do repertório,
sem interesse maior. Nessa época, projetei
três ou quatro luminárias bastante interessantes,
que brincavam com a cor. Era, por exemplo, uma mesa
com quatro lâmpadas fluorescentes verticais,
duas vermelhas e duas verdes, que davam o color mix
hoje em dia tão em voga. Não havia nenhuma
preocupação com a iluminação:
era um objeto luminoso.
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| Hoje em dia, como você se
define: designer, luminotécnico ou artista? |
Uma reportagem publicada sobre meu
trabalho tinha como título “O grande fuçador”.
Acho que essa é a melhor definição.
Somo coisas, vou explorando e pesquisando. Não
quero ser um profissional marcado, apenas um instrumento
da luminotécnica ou do design. Tanto que já
estou começando a procurar outros caminhos,
para alcançar novos territórios. Como
venho das artes plásticas, sou muito mais explorador,
misturado com cientista. Desde criança sou
interessado em percepção visual. Trabalhei
com moda, publicidade, artes gráficas, embalagens,
mas sempre envolvendo o visual, a plástica.
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| Existe alguma relação
entre a exposição de 1989 e a atual? |
Existe. Isso está relacionado
à maneira como costumo trabalhar. Diante de
uma dificuldade ou problema, em que algo não
se comunica, sou um bom administrador de conflitos.
Nos papéis que já desenvolvi como consultor
de empresas, sempre me dei bem em administrar conflitos
e conseguir fazer uma fusão. A primeira exposição
de objetos indígenas foi uma brincadeira desse
tipo e na Technokitsch é a mesma coisa. Só
que agora a questão é muito mais profunda
que a aparente junção de duas realidades.
Na época em que eu pintava quadros, por exemplo,
percebi ter certo problema com rosa e verde-claro.
Então fiz uma série rosa e verde, foi
um desafio contra mim mesmo, ou a favor.
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| Por que o nome Technokitsch? |
Aparentemente, Technokitsch serve
para refletir até onde a tecnologia é
kitsch e até onde o kitsch é tecnológico.
A qualidade do projeto não reside em seu meio
de expressão. Você conhece algo mais
kitsch do que aqueles chaveirinhos que ficam piscando,
tão em moda? No entanto, eles são o
supra-sumo da tecnologia de iluminação,
com a luz incidindo de dentro de um cristal, tudo
gravado a laser, uma técnica de indução
luminosa, que é a questão da fibra ótica.
É um repertório tecnológico dos
mais avançados e que formaliza um produto completamente
kitsch, com bonequinho com chapeuzinho, pombinha etc.
O meio de expressão está tomando conta
de certas coisas e agregando valores ao meio de produção.
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| O kitsch tem muito a ver com o Brasil? |
Eu sempre defendi a brasilidade.
Sou filho de estrangeiros e passei grande parte de
minha vida no exterior, mas sempre tive muito orgulho
de ser brasileiro. Sou contra a vergonha que o Brasil
tem de si mesmo. Hoje em dia, os estrangeiros dão
valor para nossa música, moda, plástica
e o jeito que o brasileiro lida com a vida. E a gente
vai ter vergonha? Daí veio a brincadeira do
kitsch, de repensá-lo. Agnaldo Farias, no texto
que escreveu sobre a exposição, diz
que me distingo dos designers por fazer esse tipo
de brincadeira e fusão, por utilizar objetos
que pertencem ao repertório de todos nós.
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| Por coincidência, nesses anos
em que você se envolveu com a luminotécnica
ela realmente se tornou assunto no Brasil. |
Isso aconteceu quase no mundo inteiro,
mas nós o sentimos com mais evidência
porque o Brasil, até o começo dos anos
1990, era um país muito isolado, fora da globalização.
O desenvolvimento tecnológico dos canais a
cabo e da Internet, entre outras coisas, foi um rompimento
de véu no mundo todo. Para nós foi muito
mais evidente, porque nosso afastamento era maior.
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| Houve também um grande avanço
tecnológico no setor de iluminação,
não? |
O fenômeno da luminotécnica
apóia-se em dois pontos. De um lado, a importância
e o exercício da função; e do
outro, o avanço tecnológico que passou
a ter em várias áreas - lâmpadas,
geração de luz artifícial, ótica,
engenharia de conformação de lentes,
refletores, automação, dimerização,
programação, tricromia. Outra coisa
muito importante, abordada nas pesquisas, é
o papel da luz na questão comportamental, não
só no aspecto fisiológico, mas também
psicológico. Isso abriu um repertório
muito grande no mundo inteiro. Faço parte de
uma associação européia, e percebo
que alguns problemas são discutidos lá
quase da mesma forma como acontece aqui - são
temas relacionados do ponto de vista cultural.
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| Existe diferença entre os
projetos luminotécnicos brasileiros e os estrangeiros? |
Acho que não. Nem sei se existe
a possibilidade de fazer um apanhado da luminotécnica
brasileira: ainda é muito cedo. Mas, por fazer
projetos aqui e no exterior, percebo que existem questões
de gosto e aptidões. No repertório do
cliente brasileiro, o nível de iluminação
é mais elevado, o gosto por contrastes entre
claro e escuro é mais suave. Enquanto na Europa,
ou mesmo no Sul do Brasil, a lâmpada halógena
é tida como elegante, no Nordeste ela sofre
restrição bastante grande, porque gera
calor. Lá a população se sente
mais atraída pela luz branca, fluorescente,
que refresca psicologicamente, e que nós achamos
desagradável em determinadas situações.
É engraçado esse tipo de integração
entre psicologia e fisiologia. Sinto que existe certa
tendência para essa luz que eu não diria
brasileira, mas mais tropical. Não vamos falar
da luz paulista ou luz carioca, não sei se
chega a esse ponto de diferença. Talvez ela
até exista, mas não aflorou ainda por
falta de pesquisa. O que considero um dos desafios
na questão de percepção visual
está vinculado à luminotécnica,
é a luz brasileira. Acredito que ela exista
e que dê para fazer
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| Quais são as referências
internacionais e quem são os grandes nomes da luminotécnica
que o inspiram? |
Existem grandes lighting designers,
como Motoko Ishii. Tenho uma relação
particular com Christian Bartenbach, devido a uma
parceria, pois seu escritório desenvolveu uma
tecnologia que eu trouxe para o Brasil e que exploro
nesta exposição. O escritório
de Bartenbach tem 70 profissionais, mas poucos arquitetos
- o restante são físicos nucleares,
psicólogos etc. Eles lidam com a luminotécnica
e a percepção visual de forma muito
mais sofisticada e precisa do que eu, e é isso
que me interessa, mesmo não concordando com
tudo que propõem.
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| Qual a formação ideal
para quem trabalha com iluminação? |
O bom luminotécnico, antes
de mais nada, precisa saber ver. Depois, depende muito
do tipo de trabalho que vai desenvolver: mais técnico
ou criativo e artístico. A luminotécnica
é uma atividade tão abrangente que no
futuro terá ramificações de profissionais
como consultor de luminotécnica, consultor
de imagens, luminotécnico vinculado a conservação
de energia, a poluição visual, luminotécnico
cenográfico, que realiza trabalhos mais poéticos
etc. E existem desde profissionais que fazem ambientação
- por exemplo, em restaurantes - como luminotécnicos
vinculados à cura pela cromoterapia. Acho que
a formação precisa ter uma base relativamente
boa de ciências exatas, porém com grande
apropriação das ciências humanas.
Mas a luminotécnica, de certa forma, está
começando a ficar popular, e quando o território
começa a ficar conhecido eu me pergunto: qual
será meu próximo passo? Quero sempre
romper limites, abrir porteiras.
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| Então você é
contra a regulamentação profissional do
luminotécnico e a criação de um curso
específico? |
Não sou contra, tanto que
fui convidado para participar da estruturação
e dar palpites no curso de uma faculdade junto com
a Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo e a Associação
Brasileira da Indústria de Iluminação,
a Abilux, para formar profissionais também
de luminotécnica, mas voltados para projetar
luminárias técnicas e decorativas. Sou
contra as barreiras que prendem a liberdade de criação.
E ao mesmo tempo precisam existir parâmetros
para evitar que playboys brinquem irresponsavelmente
com coisas sérias. Se não formos nós,
luminotécnicos, designers e arquitetos, a criar
coisas novas, quem o fará? É preciso
aproveitar o aprendizado e nossas relações
junto a fornecedores que podem oferecer novos recursos,
e ousar utilizando a ponderação e a
maturidade para aplicar os riscos de forma conseqüente.
Pode-se arriscar mais coisas onde haverá menos
efeito de comprometimento, e arriscar menos quando
há maior possibilidade de comprometimento.
Esse tipo de bom senso me parece ser a principal característica
de qualquer criador, seja ele designer, arquiteto,
luminotécnico, cenógrafo. O avanço
da novidade não pode colocar o público
como cobaia.
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| Qual conselho você daria para
um arquiteto ou designer que estivesse interessado em
ingressar nessa área? |
Primeiro, que tenha interesse no
assunto. Segundo, que aprenda a ver - inclusive de
olhos fechados, ver escutando. Fora isso, há
a questão acadêmica: se não houver
curso de luminotécnica, que procure fazer algum
curso que esteja o mais próximo possível,
como design de objeto, arquitetura de interiores,
arquitetura. Depois, por meio de literatura, seminários,
congressos, no Brasil e no exterior, procurar complementação
para os buracos que possa sentir. Sempre buscar o
que está faltando, o que está sendo
pedido pela voz externa - o cliente - ou, como no
meu caso, pela voz interna, que sempre me empurra
para tirar todas as dúvidas.
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| Qual sua opinião sobre fabricantes
e lojas que fornecem projetos de luminotécnica? |
Não sou totalmente contra.
O que acontece é que existem níveis
de demanda, capacidade e responsabilidade. No caso
de um apartamento com 30 metros quadrados e um cliente
que não tem maiores exigências, por exemplo,
o arquiteto não tem motivo para me chamar.
Mas dependendo da realidade do projeto, do perfil
do cliente e da responsabilidade e comprometimento
com esse projeto, ele vai requisitar um profissional.
A liberdade, e ao mesmo tempo responsabilidade, de
saber qual é o componente adequado para fazer
o melhor produto acaba sendo a grande importância
da arquitetura ou de qualquer tipo de projeto contratado.
Há empresas que fazem projetos e que acabam
tendo limitações, por mais sofisticadas
que sejam. Elas não têm a mesma liberdade
do profissinal, pois em seu prisma um forte componente
é vender peças. Isso não acontece
só no Brasil. Essas grandes empresas têm
profissionais com certa competência, mas falta
isenção, e eles acabam fazendo algo
padronizado.
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Por Fernando
Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 296 Outubro de 2004 |
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