Alberto Botti
"Sempre dividi minha vida profissional em dois níveis. Primeiro, o exercício da profissão, que é o objetivo fundamental. Em segundo lugar, vem o lado político desse exercício."
 
  Nascido em Santos, SP, em 1931, Alberto Botti formou-se no Mackenzie em 1954. Foi estagiário de Oswaldo Bratke antes de associar-se a Marc Rubin, em 1956. A dupla iniciou a vida profissional projetando e construindo.

Primeiro casas, logo seguidas de edifícios. Alguns deles se tornaram conhecidos prédios residenciais de São Paulo, famosos pela conjugação de estrutura aparente de concreto armado (pioneira na cidade) com persianas de madeira - como os edifícios Conselheiro Brotero (1962) e Hildebrando Almeida Prado (1962), ambos no bairro de Higienópolis. Depois deste período, a dupla passou a dedicar-se exclusivamente aos projetos. A partir daí, desenharam edificações amplamente divulga- das. Entre elas estão unidades do Sesc (como o Centro Campestre de São Paulo, de 1976, e a sede de Santos, de 1980), prédios comerciais (como o Nestlé, de 1961, e o Centro Empresarial Nações Unidas, de 1990) e ainda edifícios institucionais (por exemplo, o Centro Brasileiro Britânico, de 1999).
   
 
  A Lei das Licitações é um exemplo do profundo desprezo que o governo tem pelo projeto de arquitetura. É preciso estabelecer padrões rígidos que permitam trabalhar com o preço mínimo.
 
Crítico feroz do novo zoneamento proposto para São Paulo, Alberto Botti merece ser ouvido: formado há 50 anos, desde essa época está à frente, com Marc Rubin, de um dos mais ativos escritórios de arquitetura do país. Além disso, atua de maneira intensa nas entidades de classe: foi presidente do IAB/São Paulo e da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea).
 
Como o senhor vê o novo plano diretor proposto para
São Paulo?

Tenho admiração e respeito por Jorge Wilheim, que, além de profissional de alto nível, é meu amigo. Portanto, o plano diretor e a Lei do Uso do Solo que emanam dele têm minha atenção. Porém, qualquer obra como essa tem dois aspectos: os conceitos e a forma desses conceitos. Gosto muito dos conceitos do plano, dessa visão que considera apenas dois tipos de uso, habitacional e não-habitacional. Não se pode mais amarrar os usos geograficamente, porque tem que existir uma miscigenação. É preciso amarrar em outros aspectos, como o sistema viário.

 
E sobre o segundo aspecto?

Ele diz respeito à maneira como esses conceitos são expostos. O conceito do zoneamento de São Paulo, que tem mais de 30 anos, é absolutamente claro: são cinco mapas e 30 ou 40 leis no plano diretor. A forma era perfeita, o conteúdo era o que existia na época. Hoje, com o conteúdo eu concordo, mas não com a forma, extremamente complexa e difícil.

 
O que está errado?

Entre a concepção e a execução faltou um grupo que tivesse conhecimento profundo do uso dessa legislação. Quem fez o plano foi um grupo por quem tenho profundo respeito como profissionais de planejamento, mas falta o dia-a-dia do exercício profissional. Eles estão mais ligados a escolas, pesquisas, órgãos de planejamento. Como conseqüência, a forma da lei é extremamente complexa e confusa. Uma lei que tem 340 mapas e cerca de 200 artigos está errada por princípio. O planejamento é a capacidade que temos de englobar desejos, problemas, condições dentro de uma única visão, para que ela dê equivalência e condições a toda a população. Não me parece correto que o morador de Pinheiros tenha alguma vantagem sobre o de Santana ou vice-versa. A cidade é um todo vivo e constante, ela se renova, muda. Até hoje só consegui ver os mapas setoriais, poucas pessoas conseguiram ver no total.

 
Mas uma cidade com a dimensão de São Paulo não teria, naturalmente, um zoneamento complexo?

Não. Essa visão de que repartir em pequenas parcelas uma coisa grande resolve melhor os problemas é um erro. Isso torna o problema mais complexo.

 
Criar um sistema complexo não atrapalha a aprovação, dando margem para esconder certos aspectos?

É evidente. O maior problema da tecnocracia é quando se volta para si mesma, começa a se auto-admirar. O preciosismo tecnocrata começa pela nomenclatura. Zoneamento não é lei, é o desenvolvimento de uma cultura. Como, de repente, jogar a cultura pela janela e começar tudo de novo?

 
O que aconteceria no dia seguinte à aprovação
desse plano.

É o day after. Vai parar tudo. Se a lei fosse aprovada esta semana, antes de seis meses não conseguiríamos aplicá-la. Não haverá profissionais capazes de fazer projetos e muito menos de analisar na prefeitura. Espero que haja um prazo para o início da aplicação da lei, para todo mundo ter tempo de conhecer.

 
Nestes 50 anos de carreira, o senhor dividiu seu tempo entre a prancheta e a participação nas entidades dos arquitetos, não?

Sempre dividi minha vida profissional em dois níveis. Primeiro, o exercício da profissão, que é o objetivo fundamental. Em segundo lugar, vem o lado político desse exercício. Todo arquiteto que atinge determinado volume de trabalho tem obrigação de participar ativamente desse lado político e dar uma parte de si como devolução do que recebeu da arquitetura. Essa devolução tem que ser em função da classe dos arquitetos.

 
Desde quando o senhor se envolveu na vida institucional?

Eu me formei em 1954 e quatro anos depois já era diretor do IAB/SP. Em 1964, fui presidente do Departamento de São Paulo. De lá para cá, minha atividade foi intensa. Participei do grupo que fundou a Asbea. Acho que, entre os fundadores - pelo menos, entre os que estavam no dia da fundação, que aconteceu no Rio de Janeiro, no escritório de Maurício Roberto -, sou o único vivo. Fui o primeiro presidente da Asbea, depois diretor durante muito tempo. Hoje sou presidente do conselho.

 
Como o senhor vê a atual tendência da Asbea de reunir também os escritórios de menor porte, para aumentar o número de associados?

É natural que ela se afaste dos objetivos que nós, fundadores, imaginamos. Se hoje o número de escritórios pequenos é significativamente grande e importante, seria rídiculo, e até elitista, a Asbea querer se limitar aos de maior porte. Até porque, a bem da verdade, graças à democrática crise, hoje não existe mais grande diferença entre os escritórios - estamos todos nivelados por baixo.

 
Como anda a arquitetura brasileira?

Está em decadência em termos mundiais, a ponto de não se saber o que é a arquitetura brasileira, como se sabia há 30 ou 40 anos. Ainda se fala de Oscar Niemeyer e das obras que ele fez há 40 anos, porque as atuais ninguém conhece, nem está interessado. O que existe é uma visão passadista do que foi a arquitetura brasileira, uma escola nos anos 50, 60 e 70. Hoje ela não é mais nada.

 
Por quê?

Houve total decadência profissional, devido a fatores variados. Basicamente, porque a cada dia o projeto perde mais importância dentro da sociedade brasileira. Ele é visto com certa desconfiança. O projeto perde essência porque falta qualidade, e aumenta a falta de qualidade porque se perdem as condições de executá-lo. Esse círculo vicioso está destruindo o projeto e, por conseqüência, o arquiteto.

 
Esse processo não começa na faculdade?

Começa na faculdade no momento em que ela despeja na rua um número de profissionais muito maior do que o mercado é capaz de absorver. Outro dia me disseram - ninguém sabe esse número ao certo - que o número de profissionais registrados no Crea estava na faixa de 70 mil. Se admitirmos que uma grande parte deles não está registrada, o número de arquitetos pode chegar a 100 mil - dez vezes mais do que o mercado pode absorver. O ensino de arquitetura não atende o interesse nacional: é apenas um negócio. Fabrica-se arquiteto como colher, pouco importa se tem gente querendo mexer o cafezinho com a colher ou não.

 
E a Lei de Licitações?

Ela foi criada para que o governo pudesse comprar coisas mediante uma regra. Agora, todas as modalidades têm uma regra própria, ou seja, a regra geral se aplica a poucos infelizes, à meia dúzia que sobrou. Então se compra um projeto pelo preço mais baixo, o que é absurdo. Não se pode adquirir um produto intelectual assim. É preciso estabelecer padrões rígidos que permitam trabalhar com o preço mínimo.

 
O que os arquitetos podem fazer para mudar isso?

Eles estão tentando, mas acho que não têm força política. Quem pode colocar em pauta a arquitetura dentro do governo federal? Temos Oscar Niemeyer, por quem tenho profundo respeito, mas que nunca se interessou pela classe. Temos Jaime Lerner, presidente da União Internacional de Arquitetos, que pouco tem feito no processo profissional, nunca participou do IAB.

 
E Luiz Paulo Conde?

Conde é um caso à parte, no passado ele participou bastante. Não culpo nenhum deles - reconheço que às vezes estão envolvidos em um processo político de maneira tão forte que esquecem um pouco sua origem. Mas seria bom se Conde se esquecesse um pouco do Rio e Niemeyer de Cuba, e se lembrassem dos arquitetos brasileiros. Devido à posição que ocupam, têm bastante força para ajudar. O problema não se resume à Lei de Licitações, mas ela é um exemplo do profundo desprezo que o governo brasileiro tem pelo projeto.

 
Tudo isso vai levar a arquitetura para onde?

Não sei. Procuro constantemente escrever e falar a respeito. Nos últimos 30 anos, tenho insistido na necessidade de valorizar o projeto. Nós valorizamos nossa agroindústria, por que não valorizar também o produto intelectual? Ou o produto intelectual é apenas a bossa nova? Não é, mas parece ser, porque o ministro da Cultura é ligado à música e, até hoje, nunca abriu a boca para falar de arquitetura. Ela é um elemento cultural e profissional. Sob o aspecto profissional ela não existe, o Crea é uma piada em termos de defesa da profissão.

 
Falando em Crea, há no ar a idéia de que o novo conselho a ser regido pelos arquitetos mudaria todo o panorama. O senhor compartilha dessa expectativa?

Não há dúvida de que a atuação do Crea na defesa do projeto e da arquitetura brasileira é zero à esquerda. A única coisa que sabe fazer é multar o arquiteto que não tem registro. Isso é válido, mas é muito pouco.

 
O que o senhor acha dos prédios neoclássicos construídos recentemente em São Paulo?

O clássico não é feito em São Paulo desde a antiga estação Sorocabana. De lá para cá, o que temos é o pseudoclássico. Há uma invasão de projetos americanos de péssima qualidade, o que nos coloca nessa estranha situação de ter de criticar ao mesmo tempo o clássico e o moderno. O que sobra? Sobra a obra de meia dúzia de arquitetos que conseguimos tirar do fosso geral, e que evidentemente não resolve coisa nenhuma.

 
Mas o clássico e os projetos dos estrangeiros têm a participação de arquitetos brasileiros. Como o senhor analisa isso?

O clássico é feito por arquitetos que não conseguiram outra maneira de sobreviver, basicamente porque o mercado não permite que façam outra coisa, e talvez não tenham condições de fazer melhor. Tenho lido justificativas engraçadíssimas de jovens colegas sobre os que eles fazem, coisas sem pé nem cabeça. Na verdade, a justificativa é a absoluta falta de penetração da arquitetura brasileira de qualidade no mercado. Por um lado, ela está desaparecendo; por outro, o mercado que compra arquitetura é tradicionalmente de baixo índice cultural.

 
E como o mercado trata o senhor, que tem 50 anos de formado?

Em 1970, com 15 anos de formado, eu não tinha a experiência e o conhecimento de hoje. No entanto, minha opinião era muito mais respeitada e ouvida. Naquela época, jamais os corretores de imóveis teriam a coragem de entrar no meu escritório e discutir comigo uma planta. Hoje, eles chegam aqui, pegam o lápis e querem corrigir. Evidentemente que, na verdade, eles estão interferindo, pois têm visão extremamente limitada do problema e não possuem condições de entender o que se está propondo. Eu sou obrigado a ouvir, dar risada - por dentro - e ficar quieto. Não é um fenômeno individual, mas coletivo.

 
O arquiteto perdeu o poder de decisão sobre o projeto?

Sim. E, o que é pior, perdeu o poder de bem influenciar a sociedade. Ela só pode ser bem influenciada a partir do momento em que respeita seus representantes. Se amanhã a sociedade brasileira chegar à conclusão de que seus médicos são incompetentes e começar a dar palpite em tudo, estamos liquidados. Não será preciso estudar medicina, seremos todos curandeiros. E isso está acontecendo: a arquitetura está caminhando com os curandeiros. Está havendo uma confusão tão grande na sociedade que não há distinção entre bom e ruim, e os curandeiros estão no mesmo nível de profissionais com gabarito.

 
No início de sua carreira o senhor também construía. Isso é um modelo a ser seguido ou o arquiteto tem que fazer apenas projeto?

O arquiteto só pode deixar de fazer obras depois de ter feito muitas. Hoje não construo mais, pois atingi um nível de conhecimento que me permite deixar a construção. Mas, se eu tivesse menos idade e mais disposição, voltaria a construir. Sinto certa defasagem, apesar de procurar acompanhar a construção de meus projetos. A função do arquiteto é construir, não projetar. O projeto é um produto-meio, ele só tem sentido na obra executada.

 
Como funciona a parceria entre o senhor e Marc Rubin?

Cada um tem uma linha de trabalho e cada projeto feito em nosso escritório é conduzido por um de nós. Mas a concepção é discutida pelos dois e pelos demais arquitetos. No momento em que se cristaliza a concepção, o desenvolvimento é atribuído a um dos sócios, e à medida que o projeto vai se desenvolvendo ele é transferido para um coordenador específico. Não conheço nenhum outro escritório de arquitetura de trabalho contínuo com os mesmos titulares.

 
 
Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 294 Agosto de 2004
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