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| Demestre
Anastassakis |
| “A luta pela criação
do CAU está em primeiro lugar” |
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“Temos que democratizar
a profissão através de subsídios”,
ele propõe. Sua arma é o diálogo.
“Fui preso e dialoguei com o torturador. Então,
vou dialogar com a Abea e com a FNA”, garante |
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“Tenho feito muitas palestras
para estudantes, e vejo que há um grande anseio,
independente de suas posições políticas
e ideológicas, por trabalhar com habitação
popular. Todo mundo acha que a saída profissional
é para essa área” |
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O novo presidente
do IAB/DN, Demetre Anastassakis, alia sensibilidade e
firmeza. Ele assume a direção nacional com
um desafio: implantar o conselho exclusivo dos arquitetos.
N ascido em Atenas, Demetre Anastassakis mudou-se da Grécia
para o Brasil com oito anos de idade. Criado em Nova Iguaçu,
município situado na Baixada Fluminense, formou-se
em arquitetura em 1973, pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro, e pós-graduou-se em planejamento urbano
e regional na mesma instituição. Desde essa
época, atua como arquiteto e urbanista.
Entre os principais projetos desenvolvidos por ele estão
o mutirão São Francisco, para habitação
popular, em São Paulo (obra realizada durante a
gestão Luíza Erundina), e a reurbanização
da favela da Maré, Rio de Janeiro, que fez parte
do programa Favela-Bairro e foi exposta na última
Bienal de Arquitetura de Veneza.
Anastassakis também exerce intensa atividade junto
aos órgãos de classe: foi presidente do
IAB/RJ (1994/95), e, desde o ano passado, era o representante
do IAB no Conselho das Cidades. Aos 56 anos, ele assume
a comando do Instituto de Arquitetos do Brasil/Direção
Nacional. |
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| Quais serão as prioridades
de sua gestão no IAB/DN? |
Trabalhar pela criação
do conselho próprio e colocar a profissão
na rua, ou seja, socializá-la. Mas
a luta pela criação do Conselho de Arquitetura
e Urbanismo, o CAU, está em primeiro lugar:
não conseguiremos que a profissão avance
se não a retirarmos dos grilhões burocráticos
em que está metido o sistema Confea/Creas.
Há Creas que funcionam bem, alguns presidentes
são parceiros, arquitetos comprometidos com
nossa causa.
O problema é a burocracia cartorial do sistema.
É como imaginar, em um mesmo conselho, médicos,
psicanalistas, dentistas, auxiliares de enfermagem
e botânicos, uns regulando a profissão
dos outros. E eu tenho eletricistas que regem o meu
exercício de urbanista. Não se trata
de briga financeira nem de má gestão,
porque esta pode ocorrer também no CAU. Mas
não nos serve - nem à nação
- um sistema multiprofissional.
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| Há pontos delicados nessa
divisão? |
Teremos que fazer um divórcio
amigável, se possível, com séria
discussão de duas questões no day after
de nossa alforria. Uma é a divisão do
patrimônio, para o qual contribuímos
nesses anos todos. E como divisão de patrimônio
dá briga, teremos que ser altaneiros, porém
humildes, para fazer essa partilha. A
outra questão é dividir as atribuições
com os engenheiros civis, principalmente, para que
eles não sejam invadidos por nós e vice-versa.
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| Existe consenso entre os arquitetos
a respeito da separação? |
Acho que sim, mas temos que fazer
uma enquete para saber o que os arquitetos pensam.
No útimo Encontro Nacional de Sindicatos de
Arquitetos, foi lançada a idéia de uma
pesquisa, e uma das primeiras coisas que farei como
presidente é trabalhar para que ela aconteça.
Acho que Confea/Creas devem participar disso, mas
como parceiros, e não como donos. O que não
pode é o Confea dizer que vai fazer a enquete
e ficar postergando.
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| Como pretende lidar com as oposições
ao CAU? |
Precisamos ter diálogo bom
e forte com a Abea [Associação Brasileira
das Escolas de Arquitetura] e a FNA [Federação
Nacional dos Arquitetos]. Tenho recebido sinais de
simpatia de seus dirigentes, apesar das visões
diferentes. E nem tenho poder jurídico e político
para fazer uma lei sem as outras entidades. Mas minha
intenção é ser agressivo nessa
questão. Isso é uma crítica e
um elogio ao Haroldo [Pinheiro, ex-presidente do IAB/DN]:
ele é gentleman demais, em alguns momentos
é pouco agressivo. Temos que conscientizar,
correr todo o Congresso, encher a paciência
do governo.
Já contamos com a parceria total da Abap [Associação
Brasileira dos Arquitetos Paisagistas] e da Asbea
[Associação Brasileira dos Escritórios
de Arquitetura], e boas parcerias estabelecidas com
a Abea e a FNA - mais na primeira, já que a
diretoria da FNA tem um olhar diferente do nosso.
Mas há gente lá dentro que pensa diferente
e faz oposição. Acho que boa parte -
não digo a maioria - dos filiados à
FNA quer o CAU. E quem estiver
contra que se coloque, com o ônus dessa posição.
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| Com a consolidação
do novo conselho, o IAB continuaria existindo? |
Sem dúvida. Não consigo
imaginar o IAB, com 80 anos de luta, como um cartório.
Ele é uma entidade política. E um órgão
de criação compulsória, tal como
é o sistema Confea/Creas, como será
o CAU, não pode ser uma entidade política.
Esse órgão que defende tanto os interesses
da sociedade em relação ao mau desempenho
da profissão como certas posições
corporativas, compulsoriamente, não pode ser
o mesmo que me auxilia na luta por um ponto de vista
que o outro pode não ter. Não posso
nem obrigar essa entidade compulsória a ter
uma opinião dominante.
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| Fale um pouco mais sobre a outra
prioridade em sua gestão, que seria “colocar a
profissão na rua”. |
Temos que
achar fórmulas para subsidiar o acesso ao arquiteto
pelos mais pobres, como, por exemplo, acontece com
o médico, no Sistema Único de Saúde.
Estamos com pouco trabalho e teremos mais, não
tenho vergonha em dizer isso.
Na minha profissão, o bem para mim é
o bem comum. Não tenho o problema dos advogados,
que são obrigados, por questões éticas,
a advogar para bandidos. O que eu fizer, se fizer
bem feito, contribui para o bem de todos, seja atuando
em decoração ou em um grande empreendimento
regional.
O governo fala em crescer, mas não dá
para fazer a nação crescer com a bagunça
em que estão as cidades, das edificações
em si ao planejamento urbano. Não imagino esse
crescimento sem a participação firme
de arquitetos na gestão pública, nas
empresas privadas, nas universidades, nas entidades
de classe. Somos uma categoria fadada a participar
do crescimento.
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| Mas com a verba destinada pelo governo
federal para o Ministério das Cidades, por exemplo,
fica difícil imaginar qualquer tipo de desenvolvimento,
não? |
Com certeza, mas também não
vamos culpar esse governo. Nos últimos períodos
da gestão anterior foi pior. Não sou
do PT nem do PSDB, então posso falar à
vontade. Na intenção, parece que o governo
Lula se saiu bem. Mas, como qualquer outro, não
soube enfrentar a burocracia.
Eu digo brincando - e não se entenda isso como
falta de respeito - que o Waldomiro [Diniz, ex-assessor
da Casa Civil, envolvido em acusações
de corrupção] acabou forçando
a reação de alguns setores que estavam
dormindo. Mas, apesar da boa vontade, se não
forem mostrados resultados até janeiro ou fevereiro,
é porque a burocracia venceu.
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| De onde vem essa certeza? |
Participei de algumas reuniões
em que os representantes do Ministério das
Cidades foram muito duros com seus parceiros do governo.
Por outro lado, tenho projetos parados há três
ou quatro anos, que atualmente estão sendo
aprovados. A Caixa Econômica Federal saiu do
marasmo e está discutindo orçamento,
coisas concretas.
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| Então sua avaliação
acerca do Ministério das Cidades é positiva? |
Atualmente há uma ação
positiva, mas ela demorou bastante. O Conselho das
Cidades, por exemplo - do qual participo por indicação
do IAB/DN -, ficou seis meses dormindo. Tenho certeza
de que não foi culpa do ministério ou
do ministro. Mas agora que tomamos posse, começamos
a decidir temas muito candentes, como subsídio
e parcerias privadas.
O ministro Olívio
Dutra não é do ramo - disse-lhe isso
pessoalmente -, mas é muito democrático,
soube organizar a Conferência das Cidades, mesmo
com certo exagero por parte da comunidade. Ele está
muito bem assessorado por uma equipe do ramo, como
Ermínia Maricato e Raquel Rolnik, e também
no segundo e terceiro escalões.
E para se ver como a questão urbana está
atrasada cem anos, temos nesse governo dois ministérios
ligados à questão agrária: um
da agricultura empresarial, do capital - com o ministro
Roberto Rodrigues -, e outro de distribuição
de terras e agricultura familiar. E sabemos que a
nação está urbanizada entre 70%
e 80%.
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| O senhor continuará fazendo
parte do Conselho das Cidades? |
Esse cargo, tradicionalmente, é
ocupado pelo presidente do IAB. Haroldo, mesmo com
todas as divergências que temos, achou que eu
devia ocupá-lo e submeteu isso ao Cosu. Eu
fiquei emocionado, e aceitei o desafio. Devo manter
o cargo, mas se estiver com muitas atribuições
vou abdicar. Mas são apenas quatro reuniões
por ano, e o peso da figura do presidente ajuda.
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| E quanto à liderança
do IAB na criação do CAU? |
O setor da construção
civil como um todo, da pedra britada aos móveis,
corresponde a 22% a 22,5 % do PIB. Nós caímos
8%, e caiu o PIB nacional. Esse setor hoje não
tem uma liderança clara. Não se trata
de pessoa, mas de uma entidade profissional que lidere.
Pode parecer soberba dos
arquitetos, mas somos uma categoria profissional que
conversa com o capital e conversa com o cidadão
que quer invadir, ocupar e resistir. Não
vejo nenhuma outra categoria com diálogo tão
amplo. Cabe-nos um papel de liderança política.
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| Mas onde seria exercida essa liderança?
Junto ao ministério? |
Também, mas liderança
perante a sociedade. Estamos discutindo dentro do
Conselho das Cidades como ter subsídios. Houve
até críticas dentro do IAB, dizendo
que falo como economista. Sim, que os economistas
sejam chamados para assessorar essa discussão.
Resolvida essa questão, quem paga o principal,
quem subsidia o quê? Vou ter mais coisas para
construir, e o Sinduscon vai gostar. Temos esse poder
de síntese que estamos começando a praticar.
Perdemos o assanhamento empreendedorista.
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| Será que algum dia os arquitetos
tiveram esse assanhamento? |
Não sei se coletivamente.
Mas houve um clima empreendedorista antes da ditadura:
nós fizemos Brasília. Podemos também
lembrar as transformações de Curitiba,
conduzidas por Jaime Lerner. Ou mesmo as experiências
de Luiz Paulo Conde, primeiro como secretário,
depois como prefeito do Rio; Edmilson Rodrigues, em
Belém, e Osvaldo Sampaio, em Niterói.
Empresas como Gafisa, Atlanta e Rossi não têm
uma entidade nacional que as represente com força;
quando procuram o ministro, elas juntam as lideranças
do Rio e de São Paulo. E os empreiteiros, há
quanto tempo são representados por José
Roberto Pontes, do Rio Grande Sul? Não se vê
essas empresas expressando-se nacionalmente, combinando
seus interesses comerciais, que são lícitos,
com os interesses públicos. E vemos os arquitetos,
mesmo que timidamente, já fazendo isso.
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| Sua experiência profissional
é formada sobretudo por trabalhos de habitação
de caráter social, não? |
De início, tive um escritório
em Nova Iguaçu - cidade onde fui criado e estudei
- que só atendia a burguesia: casas, associações
médicas, campus universitário etc. Hoje
sou conhecido como um arquiteto de habitação
popular, mas também faço planejamento
urbano, consultoria imobiliária e planos diretores
para prefeituras, só que os resultados não
aparecem rapidamente.
Aparecem os conjuntinhos, que fazem sucesso, são
fotografados e saem nas revistas, e isso acaba me
carimbando. É um fato
comum, e cruel, das grandes cidades: você é
carimbado e só faz um tipo de programa.
Então, se alguém me encomendar um hospital,
vão dizer que não sei fazer, que só
sei fazer casinha.
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| E até que ponto essa experiência
pode ajudar a colocar os “profissionais na rua”? |
Em primeiro lugar, isso me ajudou
a ser eleito presidente do IAB/DN; não foi
só por minha atuação política.
No entanto, pouco discutimos sobre arquitetura e urbanismo
no Cosu: só tratamos de questões corporativas.
Lembro que em outras gestões fizemos palestras
com alguns arquitetos, e eu - veja que ridículo
- não conhecia a produção do
[arquiteto gaúcho Carlos Maximiliano] Fayet,
de quem discordo politicamente em várias coisas,
mas que considero um grande arquiteto. E certamente
ele não conhece os meus trabalhos, a não
ser um ou outro publicado por revistas.
Tenho feito muitas palestras
para estudantes, e vejo que há um grande anseio,
independente de suas posições políticas
e ideológicas, por trabalhar com habitação
popular. Todo mundo acha que a saída profissional
é para essa área. Grandes
escritórios estão se voltando para ela,
e o governo está injetando dinheiro. Estou
lutando para ampliar o mercado profissional e tenho
dado provas disso em meu próprio trabalho.
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| A academia não deveria estar
envolvida nesse processo? |
Não quero ficar preso à
visão acadêmica, tenho uma visão
mais prática. Mas queria a academia como subsidiária
disso. Fizemos uma primeira experiência, financiada
pela Comunidade Européia. Formaram-se duas
turmas de pessoas que sabem trabalhar com populações
pobres.
O governo federal está olhando isso com muita
atenção, deve financiar mais experiências.
No Recife, já está se fazendo um programa
encaminhado por Bruno Ferraz, Minas Gerais também
trabalha nesse sentido. Então teremos três
ou quatro estados pioneiros, e o Ministério
das Cidades quer apostar no setor.
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| De onde virá o dinheiro para
isso? |
Para treinar as pessoas existem verbas
do ministério, isso é barato. Para dar
remuneração a quem ainda não
é profissional, pode-se criar um sistema de
bolsas, até com recursos do Fundo de Amparo
ao Trabalhador. Hoje o FAT tem 30 bilhões,
e tenho certeza de que ninguém sabe o que fazer
com 10 bilhões. Então se poderia formar
arquitetos e engenheiros, pagá-los por um ano
como bolsistas, na mesma ótica do programa
Primeiro Emprego. Pode-se formar também pedreiros,
eletricistas etc.
Se o dinheiro que o presidente
prometeu fosse liberado hoje, e a burocracia fosse
eficiente, não teríamos quadros para
aprovar os projetos, para criá-los e para construir.
Por ocasião do programa Favela-Bairro, pouquíssimos
escritórios de arquitetura estavam habilitados
para aqueles projetos. Hoje, temos 30 escritórios
no Rio, e de 60 a 100 no Brasil, capacitados a fazê-los.
Paradoxalmente, temos um número menor de escritórios
especializados em urbanizações novas:
ainda estamos presos ao modelito do BNH [o extinto
Banco Nacional da Habitação].
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| Como está a industrialização
da construção? A indústria está
preparada para isso? |
Em princípio, sou contra industrializar
toda a construção, porque isso responde
aos anseios de quem não tem mão-de-obra.
Mas temos que estar preparados para industrializar componentes.
Racionalizar, diminuir perdas, tornar a construção
mais limpa, lucrativa, menos penosa para o trabalhador,
sem dúvida. Mas eu não partiria para sistemas
de pré-fabricação pesada, como
se fez na União Soviética.
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| Qual sua avaliação
sobre o ensino de arquitetura? |
O principal é discutir a qualidade
da formação. Se fizermos uma relação
de arquitetos/ habitantes, estamos em um nível
muito baixo. Se qualificarmos bem esses arquitetos,
terá trabalho para todos.
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| Há alguns meses, foi divulgada
uma avaliação da OAB sobre os cursos de
direito. No caso da arquitetura, esse papel cabe a alguma
entidade? |
Vou responder de forma pessoal: isso
me surpreendeu e achei bacana. Em princípio,
parece-me que isso seria atribuição
do CAU, com contribuição de duas entidades
fundamentais, que são o IAB e a Abea.
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| Mas sendo a Abea uma associação
de escolas, sua avaliação dos cursos não
fica comprometida? |
Sim, mas não posso fazê-lo
sem a Abea. São duas coisas distintas: formar
um sistema de avaliação e avaliar cada
faculdade. Para formar um sistema de avaliação
é fundamental que a Abea e o IAB participem.
Acho até que a FNA tem que participar, enquanto
federação de sindicatos.
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| Não haveria uma dupla avaliação,
caso ela fosse feita pelo CAU - que seria uma autarquia
federal - e pelo Ministério da Educação,
com o Provão? |
A avaliação do ministério
é necessária, mas não suficiente.
Será que eles conhecem os meandros de cada
profissão? O que estão medindo é
a competência em relação aos currículos
que existem. E os currículos são competentes?
Os currículos formam os profissionais de que
o mercado precisa, ou têm uma visão que
pode ter sido boa em determinado momento, mas hoje
não é? O ministério é
a autoridade no ensino e não deve ser substituído,
mas não pode estar sozinho. Sua avaliação
é capenga em relação à
sociedade enquanto usuária do profissional.
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| Fale um pouco sobre a formação
da chapa Rio-São Paulo para as eleições
do IAB. |
Em determinado momento se pensou
em Carlos Fernando versus Gilberto Belleza [ex-presidentes
do IAB/RJ e do IAB/SP, respectivamente]. Depois indicaram
meu nome e aceitei, honrado. Podemos fazer um bom
casamento de chapas e daqui a seis meses entrar em
divergência e brigar. Mas não temos contradições,
temos apenas olhares diferentes.
É possível que, três ou quatro
anos depois que formarmos nosso conselho, surjam novos
tipos de contradições entre nós.
Mas somos parceiros na idéia do CAU.
Fui sabatinado por São
Paulo para saber se merecia conduzir essa luta, e
acharam que sim. E acham ainda que o Rio de Janeiro
em geral, e eu e Carlos Fernando em particular, tem
condições, junto ao governo, de obter
avanços nessa questão.
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| Essa sabatina é folclore
ou aconteceu? |
Aconteceu, e para mim foi uma honra.
Reuniram vinte e poucas pessoas; alguns eram velhos
amigos, outros conheci naquela noite. Fui para ser
sabatinado, não estou reclamando disso. E me
viraram do avesso para saber em quem poderiam confiar
numa parceria. Falamos até de pontos delicados,
como a minha participação no grupo que
disputou algumas vezes a liderança do IAB,
encabeçado por Maria Elisa Batista, de Minas.
“O que houve, você trocou de amigos? Trocou
a Maria Elisa e a amizade com Ceará e Bahia
por São Paulo”, questionaram. Maria Elisa vai
participar com muita força da minha gestão,
isso é sabido por São Paulo. Não
troquei de amigos, estou tentando ampliar. Maria Elisa
tem uma opinião muito forte, Belleza e [Paulo]
Sofia também. Não estou trocando um
pelo outro. Sou uma pessoa de esquerda que dialoga
com empresários.
Nasci na Grécia e
tenho orgulho da dialética. O importante é
o diálogo. Tenho opiniões fortes. Dialogo
até com o capeta. Fui preso e dialoguei com
o torturador. Então, vou dialogar com a Abea,
com a FNA, como dialogo com os setores do IAB. Não
é vergonha ter opiniões fortes que podem
mudar, eu não posso é ter opiniões
fracas.
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| É verdade que se definiu uma
divisão de tarefas entre o senhor e Gilberto Belleza:
o senhor trataria da questão de “colocar a arquitetura
na rua” e ele ficaria voltado para a aprovação
do CAU? |
Tenho certeza de que o melhor departamento
do IAB para montar nosso conselho é São
Paulo, com sua experiência no Crea, sua visão
desse tema, e com lideranças incontestáveis,
como Miguel Pereira. É o time de arquitetos
de São Paulo que militam no IAB, não
é o da FNA nem o da Abea. Essa tarefa é
deles. A tarefa que é minha, da Direção
Nacional, mas também é deles, é
lutar para conseguir o conselho. Eles vão ajudar
na luta política, mas ela é uma tarefa
do presidente e da Direção Nacional.
Não abro mão disso.
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| Qual sua expectativa quanto à
data para aprovação do CAU? |
Essa coisas são lentas, igual
à burocracia a que me referi. Tenho dúvidas
sobre quando poderá acontecer, mas que vai
ocorrer não tenho mais dúvidas. E eu
verei isso - não sei se como presidente, mas
verei. Antes, eu pensava que aconteceria daqui a 30
ou 40 anos. Mas vai acontecer, e eu verei acontecer.
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Por Fernando
Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 292 Junho de 2004 |
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