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No mesmo ano em que se formou pela FAU/USP, Paulo Júlio Valentino Bruna começou a trabalhar como estagiário no escritório Rino Levi. Nove anos depois, em 1972, foi convidado a associar-se ao escritório, com Roberto Cerqueira César, Luiz Roberto Carvalho Franco e Antônio Carlos Sant´Anna Júnior. No final dos anos 1990, constituiu com Cerqueira César escritório próprio, hoje tendo somente ele como titular.
Entre a relação de projetos realizados por Paulo Bruna, que incluem edificações industriais, prédios comerciais - o antigo shopping Ática Cultural, por exemplo, atual sede da Fnac de Pinheiros, em São Paulo -, de escritórios - como o edifício Duquesa de Goiás, em que se localiza seu escritório - e residenciais, sobressaem a técnica apurada do arquiteto, o seu rigor no tratamento do programa, da técnica e das potencialidades do lote. Além disso, destaca-se sua atuação acadêmica, sendo professor de graduação e pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). O arquiteto trabalhou na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), concluiu doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e é conhecedor da história da arquitetura. De seus trabalhos recentes, Paulo Bruna comenta nesta entrevista sobretudo aqueles de interesse social. |
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| Com relação a mobilidade urbana e transporte público, o senhor acredita que a crise das cidades tem solução? |
Se projetos como a integração entre tipos diferentes de transporte público tiverem grande intensidade, acredito que realmente pode melhorar o trânsito na cidade de São Paulo. Trata-se de dar às pessoas a opção de utilizar o metrô. Por exemplo, ir do meu escritório [no bairro do Real Parque] até a USP, onde dou aula, poderia ser muito fácil, é uma reta só. Há um trem do outro lado da margem [do Pinheiros], mas no metrô da Cidade Universitária falta uma estação. Integrei a equipe que estudou um plano diretor para a USP; queríamos instalar uma estação intermediária entre a Pinheiros e a Jaguaré, exatamente na altura do Shopping Villa-Lobos. A vantagem era entrar na USP pelo meio do campus. Acho que não caberia à universidade construir a estação, obviamente, mas se ela se propusesse a fazer a passarela, acredito que a CPTM [Companhia Paulista de Trens Metropolitanos] seria sensível à idéia. Mas a universidade entendeu que não era conveniente ter metrô lá dentro.
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| Há também intervenções pontuais, como seu projeto para a ampliação do Teatro Cultura Artística, no centro de São Paulo. [A entrevista foi feita antes do incêndio que destruiu parcialmente o TCA, em 17 de agosto de 2008] |
A Emurb [Empresa Municipal de Urbanização] colocou em licitação a reforma da praça Roosevelt. Resolvemos concorrer, mas logo desistimos porque as exigências eram de tal ordem que o projeto se revelou inviável. Do modo que está, é impossível servir um coquetel no teatro, faltam banheiros, camarins, salas de ensaio, salas de rouparia. A decisão do teatro é esperar o resultado da renovação da praça para ver se vale a pena investir na reforma. Atualmente a praça assusta as pessoas, e o teatro gasta uma fortuna para garantir a segurança dos espectadores no trajeto até o estacionamento.
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| Mas a reforma não poderia induzir a mudança desse cenário desfavorável? |
Não sei responder o que vem antes, a reforma da praça ou a ampliação do teatro. Mas há também outra série de reformas muito interessantes em andamento.
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| Em contextos de similar intervenção, ou seja, de revitalização de uma área? |
Estamos começando um projeto que envolve o prédio da Câmara [Municipal de São Paulo]. A Câmara pretende fazer o restauro, reforma e ampliação de sua sede [na região central] e isso, se levado adiante, seria uma forma extremamente interessante de dar vida ao trecho onde se abre o famoso Y do Prestes Maia, o das avenidas 9 de Julho e 23 de Maio. Esse fundo de vale está muito decadente atualmente; o projeto poderia fazer parte da revitalização do centro histórico.
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| A região passou por profundas transformações ao longo da história da cidade, não é verdade? |
Até por volta dos anos 1930, a região era não somente o centro cultural de São Paulo, mas também o centro socioeconômico. Existe um marco significativo, que é a saída do Mappin do centro velho para o outro lado da ponte [viaduto do Chá], em direção aos terrenos do centro novo, aquela porção que hoje vai da rua Formosa até a praça da República. Com o Mappin, foram embora as joalherias, as lojas, os restaurantes e outros comércios, e o centro só não entrou em total decadência porque lá permaneceram os tribunais, os escritórios de advocacia, os bancos. Mas já tinha se tornado um centro que perdeu a vitalidade, o valor locatício, os imóveis foram sendo esvaziados. Permaneceram as lojas térreas, mas há uma quantidade enorme de prédios inteiros vazios. Os planos iniciais para a revitalização da área não funcionaram porque os incentivos fiscais eram muito pequenos, insignificantes mesmo. Propunham ao sujeito a demolição de um prédio dos anos 1940, feito com coeficiente de aproveitamento 16, que poderia ser refeito com coeficiente 4. Ninguém em sã consciência aceita uma coisa dessas. Os planejadores foram muito tímidos, perderam o senso da realidade. E assim, finalmente, o centro entrou em profunda decadência. Mas Marta Suplicy criou um programa interessante de moradia no centro, em sua gestão na prefeitura. Ela levou a prefeitura ao centro, comprou o edifício que era dos Matarazzo e estava ocupado pelo Banespa; levou para lá a prefeitura, secretarias, uma porção de órgãos públicos. Através da Cohab, a prefeitura comprou uma série de prédios - alguns hotéis, como o Hotel São Paulo, e edifícios de escritórios.
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| E o que foi feito desses edifícios? |
Houve licitações, decidimos concorrer e ganhamos dois projetos da Cohab. Um foi o restauro de um edifício de escritórios na rua Riachuelo. É um prédio de planta triangular, que estava vazio havia muitos anos. No passado, era ocupado por escritórios de 30 a 40 metros quadrados, e o que nós fizemos foi transformá-los em apartamentos. Interessante que o prédio foi construído nos anos 1940, numa época em que tinha pouco aço no mercado, o material era muito caro porque vinha dos Estados Unidos. A estrutura, então, era densa, cheia de pilares, pequenas vigas, elementos dentro de paredes, vãos de pequena ordem. Por isso se conservou bem. O edifício estava às ruínas, com vazamentos de água pluvial nas lajes, mas foi possível recuperar sua estrutura e transformá-lo em prédio residencial. A obra terminou há pouco tempo.
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| O projeto passou por duas gestões? |
A gestão de [José] Serra deu continuidade a alguns dos projetos de Marta. A idéia da Cohab é alugar as unidades: são 120 apartamentos que variam de 30 a 50 metros quadrados. Não foi o único edifício, há outros que também estão sendo transformados em residências. A idéia é morar no centro. Algumas universidades estão comprando prédios antigos e, se eles forem transformados em escolas, haverá uma nova vida na região.
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| Integrei a equipe que estudou a elaboração de um plano diretor para a USP, queríamos instalar uma estação metroviária entre a Pinheiros e a Jaguaré. A vantagem era entrar na USP pelo meio do campus. Mas a universidade entendeu que não era conveniente ter metrô lá dentro |
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| Há, então, uma articulação inteligente em relação à recuperação da área? |
Nós sempre criticamos as instituições e acabamos não vendo os aspectos positivos. Por exemplo, quando foi construída a linha leste-oeste do metrô, as obras cortaram uma quadrícula retangular de forma mais ou menos aleatória. Sobraram terrenos, desapropriados, com as formas mais estranhas, triângulos de 30 e 60 graus, por exemplo. Diziam que era impossível utilizá-los, mas a Cohab os comprou do metrô e começou a projetar edifícios. Desenhamos um exatamente em frente da estação Bresser. Houve licitação para a construção, mas a empresa vencedora provavelmente não avaliou corretamente a dificuldade técnica. Outros escritórios também participaram desses projetos - o de [Hector] Vigliecca, por exemplo. Hector é um arquiteto que mereceria ter a sua obra melhor avaliada, é um excelente profissional. E nessas áreas de interesse social ele tem soluções muito bonitas. Então, é possível revitalizar o centro, sem a menor dúvida.
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| Há certa resistência em acreditar na viabilidade dessas revitalizações, talvez porque sejam muito longas. |
É preciso conhecer um pouco de história da América Latina. Santiago, por exemplo, tendo formação espanhola, é dividida em ruas e quadrantes extremamente ortogonais. Um deles, Santiago Poniente, fica próximo ao centro, é servido por linhas de ônibus e de metrô, tem boa infra-estrutura, mas, como outros bairros de qualquer cidade latino-americana, passou por períodos alternados de apogeu e decadência. Com um agravante: nos anos da ditadura [Augusto] Pinochet, existia no bairro uma via paralela à avenida principal da cidade, a avenida del Ejército, em que havia quartéis do Exército e da Marinha, todos com má reputação. Ninguém quis morar lá. Passou-se por uma fase de decrepitude total, até que uma universidade comprou dois casarões, restaurou-os na medida do possível e construiu entre eles o programa necessário ao funcionamento da instituição. Ela se chama Diego Portales, é uma entidade privada. E sabe que hoje há sete universidades no bairro? Há lojas, enconrestaurantes, vida estudantil; todas as casinhas foram restauradas. Esse processo aconteceu em menos de dez anos.
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| Em 50 anos, o prédio da rua Riachuelo foi da inauguração à ruína, mas conseguimos recuperá-lo. Edifícios assim podem não ser adequados ao programa de escritórios modernos, mas prestam-se para habitação. É possível revitalizar o centro de São Paulo |
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| Foi muito rápido! |
Por isso penso que seria necessário criarmos incentivos de tal ordem que uma universidade privada se interessasse em comprar dois, três, quatro prédios. Para minha surpresa, parece que a Unip fez isso em um daqueles edifícios na rua Líbero Badaró, que era do antigo Bank-Boston. Se isso de fato aconteceu, eles estão agindo com muita clareza. Ali há acessibilidade e muita gente que trabalha; pode-se montar cursos que estejam associados às pessoas que circulam no centro.
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| Estamos falando sobre projetos que têm desdobramentos urbanos. Desde quando eles fazem parte de sua prática? |
É algo recente. Competimos para desenvolver aquele projeto do edifício Riachuelo, que nos parecia socialmente muito importante, e, então, participamos com preço muito competitivo da licitação. Em 50 anos o prédio foi da inauguração à ruína, mas conseguimos recuperá-lo. Isso mostra que é possível revitalizar esses edifícios. Eles podem não ser muito adequados ao programa de escritórios modernos, porque não há altura suficiente para a instalação de piso elevado, para equipamentos de ar condicionado etc. Mas prestam-se bem para habitação. Estamos animados com essa forma de trabalho.
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| Eles são a maioria dos projetos de seu escritório atualmente? |
Isso não paga as contas do escritório; fazemos outras coisas também. Mas acho importante conceber, por exemplo, escolas para a Fundação para o Desenvolvimento da Educação, são também programas socialmente muito interessantes. Não que eles paguem mal, mas é trabalhoso, os terrenos são difíceis, os orçamentos muito limitados, além das dificuldades técnicas decorrentes de programas muito rígidos.
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| Que outros projetos o senhor está desenvolvendo? |
Temos feito o que sempre fizemos desde o escritório Rino Levi, muitos trabalhos industriais.
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| Que tipo de indústrias? |
Indústrias mais sofisticadas, como as de cosméticos. Estamos iniciando o projeto de uma fábrica muito interessante, de válvulas cardíacas biológicas. O começo do processo é a retirada das válvulas do coração do suíno, depois elas sofrem processo de curtição para que as fibras deixem de ser material vivo, tornam-se material flexível mas morto. Esse processo de abrir o animal e costurá-lo é muito sofisticado, há todo um processamento manual. É uma fábrica com muitos trabalhadores e, portanto, deve haver condições absolutas de higiene. Uma grande sala limpa, com 400 ou 500 funcionários. Será implantada em Belo Horizonte. Há também dois laboratórios de nanociência, o futuro da física. Existe em Campinas [interior de São Paulo] um centro do qual nunca tínhamos ouvido falar até que passamos a trabalhar na área: é o Laboratório Nacional de Luz Sincroton. É aberto a pesquisadores de toda a América Latina, e construímos no seu campus um laboratório.
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| São todos projetos fora de São Paulo? |
As indústrias saíram de São Paulo. São trabalhos de grande porte, tecnicamente muito repetitivos, mas feitos em volume grande, num curtíssimo prazo de tempo. Há um momento interessante no mercado, com muito trabalho mesmo para quem não faz edifícios residenciais. Aparentemente, esse é o grande nicho do momento. Nosso escritório, por exemplo, tem apenas dois trabalhos residenciais.
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| A arquitetura, então, não se ressentiu de perda de espaço profissional? |
Pelo contrário: os clientes de nosso escritório são recorrentes porque encontraram aqui soluções coerentes entre o programa tectônico e a solução arquitetônica. É possível fazer bons projetos valorizando a arquitetura e demonstrando a relevância do resultado final. Nosso primeiro projeto para o que hoje é a Unilever foi em 1976, em um terreno virgem, em Vinhedo, com autoria do escritório Rino Levi. Estamos trabalhando para eles até hoje, e esses trabalhos vão da pura arquitetura até a coordenação das engenharias.
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| Como foi sua experiência de trabalho no escritório Rino Levi Arquitetos Associados? Como era o convívio com o arquiteto? |
O escritório era na realidade uma escola, surpreendentemente pequeno. Quando fui estagiário, em 1962 ou 1963, havia o doutor Rino, o arquiteto Roberto Cerqueira César, Luiz Roberto Carvalho Franco, Nicola, que era um desenhista, uma secretária, a dona Marisa, um ou dois estagiários, às vezes. Uma estrutura tão diminuta era capaz de projetar, detalhar e compatibilizar os projetos das obras de grande porte que foram feitas naqueles anos. Claro que o grau de exigência e a dificuldade administrativa eram muito menores do que os de hoje, as aprovações nas prefeituras e nos órgãos eram bem mais simples, mas era uma pequena estrutura em que realmente se fazia o projeto completo. Portanto, trabalhar no escritório significava ver simultaneamente todos os aspectos do projeto. No mesmo edifício, o prédio do IAB, na rua Bento Freitas, trabalhava também o calculista de Rino. No meio do trabalho Rino mandava chamá-lo para verificar a viabilidade de algo e discutia-se na hora a solução técnica, que era, então, imediatamente incorporada à arquitetura. Era uma aula fantástica de como projetar. Os desenhos eram feitos em vegetal, a lápis; Nicola enfeitava um pouco, mas eram esses mesmos desenhos que iam para a obra. Não eram bonitos, mas eram práticos, objetivos, tinham as informações necessárias ao entendimento do projeto; eram totalmente resolvidos, impossível sermos chamados à obra por causa de algum problema. Aliás, o doutor Rino, Franco, Roberto iam com muita freqüência à obra.
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| Há algum projeto, em especial, de que o senhor se recorde? |
Naqueles anos estava em construção um prédio que acho uma maravilha. Fica na esquina da avenida Paulista com a rua Frei Caneca e tem estrutura genial. A viga é alargada no pilar, depois aumenta de seção no meio do vão. Hoje seria impossível fazer uma viga com perfil tão complexo, moldada in loco. Era a perfeita solução dos momentos, das cargas, do cisalhamento, uma verdadeira aula de arquitetura. Aquele prédio foi detalhado às últimas conseqüências e, até hoje, é o que melhor responde aos problemas de conservação de energia. De tempos em tempos são feitos estudos e é sempre boa a relação de gasto de energia por metro quadrado. Tem brises adequadamente dimensionados, afastados corretamente em relação à fachada, sua lâmina de alumínio não transmite calor ao vidro, permite ter janelas que abrem, ventilação cruzada. Por anos, até que o Itaú comprasse o prédio, os inquilinos não usavam ar-condicionado.
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| O senhor trabalhou nesse projeto? |
Sim, eu era estagiário lá, mas meu primeiro trabalho com indústrias no escritório de Rino foi uma fábrica de queijo. O escritório estava fazendo uma série de galpões para a Tecelagem Parahyba, que tinha fazendas, e um dos projetos foi o de um grande campus com centros de exposição de gado. Havia nele uma fábrica de beneficiamento de leite e de queijo. No meio de tudo aquilo aparecia Burle Marx, e Rino dizia a ele: “Bom, então o senhor faz um jardim aqui”. Começavam discussões curiosíssimas sobre o jardim que deveria existir dentro de uma fábrica de queijo. Burle Marx estava muito mais interessado em discutir vinho do que planta. Na verdade, quem discutia plantas era o colaborador dele. Essa integração era muito natural, tranqüila, e os clientes aceitavam certas complexidades, que se formassem equipes. Por exemplo, os jardins da fábrica de cosméticos da Unilever são de Burle Marx. Eles descobriram isso há pouco tempo e estão procurando recuperá-lo, porque ele virou uma selva ao longo dos anos. O pátio central, por exemplo, voltou agora a ter largos, uma fonte, esculturas de xaxim e de orquídeas muito bonitas, que Burle costumava fazer. Essas coisas é que precisavam do rigor do projeto. Veja, os desenhos não eram bonitos. Eram poucas pranchas, extremamente elucidativas.
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| O escritório Rino Levi era uma escola. Uma estrutura tão diminuta era capaz de projetar, detalhar e compatibilizar os projetos das obras de grande porte que foram feitas naqueles anos. Trabalhar ali significava ver todos os aspectos do projeto |
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| O senhor já integrou a equipe da Fapesp, é professor da FAU/USP e orienta teses de graduação e pós-graduação. Fale um pouco sobre sua atuação acadêmica. |
Na Fapesp, fui por muitos anos o representante da USP no processo de seleção de bolsas na área da arquitetura. Acho que funcionava bem, gostava de conhecer os trabalhos de todos os bolsistas. A atuação acadêmica é muito importante, os alunos são muito inteligentes, sabem direitinho se o professor estudou ou não, se fez a lição de casa. Dar aulas significa que você tem de estudar continuamente, manter-se a par do que está acontecendo, e não há espaço para amadorismo. Além do que, surpreendentemente, ajuda na prancheta, é uma realimentação contínua. Só é possível ser didaticamente eficiente quando se entende com clareza um assunto. Talvez por deformação pessoal, não consigo explicar um edifício que eu não tenha visto ou fotografado; e é curioso como, quando você trabalha como projetista e explica o prédio, a explicação é de quem entendeu como ele foi projetado, como ele foi construído. É diferente daquele professor que pensa o edifício em relação aos aspectos culturais, à corrente arquitetônica em que ele está integrado.
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Por Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 343 Setembro de 2008 |
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