|
 |
|
|
| |
ENTREVISTA
José Wagner Garcia |
|
|
|
 |
 |
 |
| |
Titular da empresa Noosfera, o arquiteto e pesquisador José Wagner Garcia é uma mente inovadora e inquieta, que procura na ciência e na arte respostas para seu trabalho, como os projetos do centro de pesquisas arqueológicas na Amazônia e de realidade virtual no Rio de Janeiro e de uma residência com dispositivos que aproximarão inteligência artificial, mecatrônica e arquitetura.
Uma das áreas mais novas da engenharia, a mecatrônica integra conceitos de mecânica, eletrônica e tecnologia da informação para gerenciar processos e sistemas em diferentes áreas de conhecimento. Na Europa já existem fachadas que se movimentam de acordo com as condições climáticas: sensores captam informações do clima, enquanto uma central informatizada aciona os comandos de abrir e fechar janelas. Muito distante da realidade brasileira? Nem tanto. Em entrevista a Cida Paiva, o arquiteto Wagner Garcia fala de suas propostas, que incluem a criação de um software para interpretar o meio ambiente e gerar informações que subsidiarão a elaboração do projeto arquitetônico. |
| |
| O que é o programa de pesquisa em arquitetura autogerativa? |
Trata-se de um núcleo de arquitetura e engenharia para o desenvolvimento de projetos sustentáveis na Amazônia, a ser financiado pela Coppetec [Fundação Coordenação de Projetos, Pesquisas e Estudos Tecnológicos], da UFRJ, e pelo Centro de Pesquisas da Petrobrás. Isso significa trabalhar a arquitetura com novas técnicas e novas formas de interpretar o conhecimento. E também encontrar uma engenharia suficiente para dar conta disso, porque não adianta ter uma concepção arquitetônica arrojada se o processo de “pensar e executar” não acompanhar tecnologicamente a construção. O desenvolvimento do programa contará com um financiamento anual para montarmos uma equipe de quatro arquitetos especialistas em arquitetura avançada, trabalhando de forma integrada com dois engenheiros civis e quatro engenheiros do setor de inteligência e vida artificiais e softwares de design evolutivo. Serão utilizadas ferramentas computacionais nas áreas de realidade virtual e realidade expandida.
|
| |
| Quais são essas novas ferramentas? |
Hoje, uma das principais ferramentas é o design evolucionário. É um sistema de desenvolvimento de desenho e projeto arquitetônico que permite a interpretação e a evolução de uma série de dados arquitetônicos fundamentais; são geradas computacionalmente opções ou resoluções formais, que podem ser co-editadas pelo arquiteto e pelo software, até a definição da melhor possibilidade. Entre o software e o arquiteto há uma miríade de soluções que seria possível inferir. Portanto, o design evolucionário é uma ferramenta que vem ao encontro do novo pensamento gerativo na arquitetura. Buscam-se formas de reduzir o impacto ambiental com o estudo dos materiais mais apropriados para determinada construção e região, a orientação e a forma da edificação, para que a própria opção formal proponha soluções e outros elementos que permitam controle térmico, acústico, orientação solar, ventos predominantes, índices pluviométricos etc. E agora, como em todos os projetos em desenvolvimento pela nossa equipe, a certificação do selo Leed passa a ser fundamental para levarmos em conta os baixos impactos, desde a retirada do material até a qualificação de como essa obra entra em sintonia com o meio ambiente. Isso nos libertará um pouco dessa relação estrita entre pesquisa e produção de conhecimento versus mercado. Nosso objetivo maior é a materialização de uma nova epistemologia para a arquitetura. A criação de um software autogerativo é apenas a ponta de um iceberg. Por exemplo, na elaboração de determinado projeto, criamos uma base de conhecimentos utilizando dados ambientais daquela localidade específica, através de sensores instalados no lugar, cujas informações serão transmitidas em tempo real para os arquitetos e engenheiros. Será possível acessar e integrar esses elementos através de mapas de sensibilidade de cada área. Cria-se uma matriz formal complexa de interpretação de dados, que será analisada através de inteligência artificial.
|
| |
| Como esse trabalho vem sendo encaminhado? |
É um projeto ambicioso de pesquisa. Não existem softwares dessa natureza disponíveis no mercado. Para sua criação é necessário gerar uma base de conhecimentos, ou seja, dados sintetizados a partir do conhecimento acumulado sobre diversas áreas. Por exemplo, o Programa de Pesquisa em Arquitetura propõe ter como elemento matricial uma base de conhecimentos, feita a partir de diversas leituras ambientais e socioeconômicas, cuja vida será impactada por determinada construção - é o caso da parceria com o Labaut [Laboratório de Conforto Ambiental e Eficiência Energética da USP] para fazer um relatório conceitual da região onde será construído o Centro de Arqueologia e da Biota Amazônica, o Caba. Com isso será possível determinar uma miríade de parâmetros para a construção dos mapas de sensibilidade que vão alimentar o software, com a capacidade de interpretar e integrar os dados obtidos.
|
| |
| Como está a constituição desse grupo? |
Desenvolvemos nesta década projetos que já prenunciavam esse desejo. Estamos atualmente na fase de contratação de pesquisadores. Por se tratar de uma equipe híbrida, exige novas condutas para a integração da cognição humana, computadores de alto desempenho e dados ambientais. Por exemplo, para uma arquitetura como a do Caba, a ser construído no meio da floresta, será necessária a compreensão sistêmica de todo o processo, uma interpretação do meio ambiente muito mais sofisticada.
|
| |
| E com relação ao desenvolvimento dos softwares para esse projeto? |
Iniciamos, a partir de 2004, alguns softwares para integrar meio ambiente e arquitetura. A edificação não ocupará o solo, porque lá existem rotas de animais que devem ser preservadas; a altura dela deverá respeitar o trajeto de pássaros, sombreamento, fluxo de água, fluxo sazonal, ventos dominantes, umidade, chuva etc. Mas os estudos do Labaut é que auxiliaram na determinação da forma arquitetônica final. Temos a idéia de um volume orgânico, que se expande. A idéia é que o edifício cresça entre as árvores, como se fosse um organismo vivo em permanente diálogo com a natureza.
|
| |
| "O design evolucionário é uma ferramenta que vem ao encontro do novo pensamento gerativo na arquitetura" |
| |
| Qual é o conceito de membrana semiótica? |
Membrana semiótica, como conceito matricial para arquitetura, se traduz como a mudança de abordagem tanto na concepção como na construção arquitetônica. Dessa forma, as ações naturais, que constituem o meio ambiente e das quais o ser humano se “protege”, passam a ser compreendidas numa relação interpretativa e adaptativa - realizada por essa cobertura ou “pele”, capaz não apenas de proteger, mas principalmente de utilizar essas forças como energia para melhor aproveitamento, tanto para o conforto da vida humana como para o equilíbrio do meio ambiente. Isso está no cerne da idéia de sustentabilidade, na qual os fatores humanos e ambientais têm igual peso no gerenciamento dos recursos naturais. O conceito de arquitetura como membrana interpretativa refere-se a analisar as condicionantes da edificação a partir de uma base de dados, que armazena informações para permitir a troca com o exterior, o diálogo, mudar a forma, abrir quando há vento, fechar quando vem a chuva, similar a uma membrana celular, uma superfície que medeia ambiente natural e urbano com a habitação humana.
|
| |
| Trata-se da arquitetura integrada a outras áreas de estudos? |
Nosso núcleo integrará a forma de interpretar esses dados. Precisamos, por exemplo, das geociências e das ciências climáticas. São assuntos que estão sendo pouco elaborados no corpo da arquitetura contemporânea. Precisamos de uma engenharia inventiva, dos recursos das ciências dos materiais, das nanociências, da botânica e da ecologia para interpretar o ambiente. Não vamos reinventar a geologia ou criar um grupo de geólogos, mas utilizar as ferramentas e informações dessas áreas para elaborar o projeto de arquitetura.
|
| |
| Há projetos com esse conceito? |
Estamos desenvolvendo o projeto de uma residência unifamiliar que aproxima a mecatrônica e a arquitetura para permitir que o espaço se modifique ao longo do dia, em resposta às alterações ambientais e de uso. Ela vai alterar a forma para interpretar os dados ambientais, por meio de um sistema de inteligência artificial, pela transposição desses dados para áreas de comando. Há também outros projetos como o Labcog - um laboratório de realidade virtual, no Rio de Janeiro -, além do Caba.
|
| |
| O que é Labcog? |
É um laboratório que está sendo construído no Rio de Janeiro, para abrigar um centro de realidade virtual. Ele é ligado ao Coppe, o instituto de pós-graduação e pesquisa em engenharia da UFRJ. A maioria dos pesquisadores do Coppe trabalha com projetos coligados à Petrobrás, que é a grande incentivadora. Parte dos recursos para a construção do Labcog veio dessa estatal, da Finep [Financiadora de Estudos e Projetos, do governo federal] e da UFRJ. Esse laboratório vai receber um computador considerado um dos cem maiores do mundo. Ele será instalado para processar os dados colhidos na Amazônia, onde há um robô com sensores que captam informações e transmitem para um determinado espaço, que é o centro de realidade virtual.
|
| |
| Como é o processo de imersão? |
Equipamentos para realidade virtual, como luvas e óculos, permitem manipular imagens e processar informações em tempo real, enviadas pelo robô ou por satélite, tudo com objetivo de pesquisa do Coppe, que desenvolve trabalhos ligados à análise de sistemas, solo etc.
|
| |
| De que maneira o mercado interpreta conceitos tão inovadores? |
Estamos fazendo um esforço desmedido para integrar esses conceitos ao mercado, porque esse tipo de trabalho supera em dez vezes o tempo de um projeto convencional - de quatro meses para dois ou três anos. E isso gera um impacto nem sempre assimilável, mas tentamos quebrar paradigmas. Precisamos de clientes corajosos para absorver esses novos conceitos.
|
| |
| É possível transpor esse tipo de arquitetura para uma metrópole como São Paulo? |
Claro que sim. Mas não sem um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento e, principalmente, uma revolução nas bases político-ideológicas e, conseqüentemente, econômicas que norteiam a arquitetura e a urbanização de uma cidade. Isso sem esquecer que os avanços tecnológicos devem alcançar dimensões coletivas. Ou seja, é preciso que sejam concebidos para servir o coletivo, e não em benefício individual ou de minorias privilegiadas.
|
| |
| “Os estudos do Labaut auxiliaram na determinação da forma arquitetônica final do Centro de Arqueologia e da Biota Amazônica” |
| |
| O senhor se considera mais pesquisador ou mais arquiteto?? |
Além de arquiteto, coordeno, junto com o geólogo e pesquisador do Cenpes Fernando Pellon de Miranda, um grupo de 40 cientistas no projeto chamado Cognitus, que estuda ferramentas cognitivas entre a arte e a ciência para a compreensão dos processos evolucionários da Amazônia. Iniciei esse tipo de consciência estética no princípio dos anos 1980, junto ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Minha história como artista no começo daquela década estabelece profundas relações entre arte e telecomunicações, geologia e nanobiotecnologia. Venho, há quase 30 anos, dividindo meu tempo entre as relações dos campos da arte, da ciência, da arquitetura e da filosofia. Isso ampliou meu repertório, mas reduziu minha aderência ao mercado. Atualmente vivo um momento especial de diálogo com instituições públicas e privadas para buscar novas parcerias e possibilidades de aplicação desses conceitos de ponta em projetos sociais de grande escala.
|
| |
| Qual seu grande projeto como pesquisador em arquitetura? |
Há mais do que uma iniciativa, mas elas seguem uma linha de ação. Dentre elas, encontra-se o desenvolvimento de um sistema experimental com cerca de 60 unidades habitacionais para serem implantadas no semi-árido, integradas como uma grande membrana que, ao se movimentar, recupera água, solo corrompido pela monocultura; essa população deve estar ligada a centros avançados de tecnologia, via rede, via satélite, para gerenciar informações e dados de modo a atender às necessidades e problemas que surjam na utilização do espaço.
|
| |
| Isso é exeqüível? |
Sim. Precisamos de uma adesão político-ideológica que permita a transformação da arquitetura tecnologicamente avançada - em grande escala - para grupos sociais desfavorecidos. Dormirei em paz quando adotarmos as condutas necessárias para que essas idéias migrem do papel para a realidade.
|
| |
| |
| |
Publicada originalmente em Finestra
Edição 53 Junho de 2008 |
|
 |
 |
 |
O arquiteto e pesquisador é uma mente inovadora e inquieta que procura na ciência e na arte, respostas para seu trabalho |
|
 |
 |
 |
veja também |
 |
| |
ÁLVARO SIZA - Parte 6/6 - Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS |
 |
| |
MARCIO KOGAN - Nesta entrevista, Kogan fala dos trabalhos polêmicos que desenvolveu durante a faculdade e do sentido de sua obra |
 |
| |
JON MAITREJEAN - Em entrevista, o professor se revela desmotivado com a arquitetura e a ética profissional, e cético em relação ao CAU |
 |
| |
ALÉM DOS LIMITES ESTÉTICOS - Entrevista com Lauro Cavalcanti, arquiteto que há 30 anos escreve sobre a produção arquitetônica brasileira |
 |
| |
Nelson Kawakami - Em entrevista, Nelson Kawakami, diretor da ONG Green Building Council Brasil, propõe a tropicalização do sistema LEED |
 |
| |
Gringo Cardia - O arquiteto fala sobre sua produção na cenografia, arquitetura, artes gráficas, fotografia, desfiles e moda |
 |
| |
 |
| patrocínio |
|
informe publicitário |
 |
 |
 |
|
 |
|
|
|
|
|
|
|