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A segunda edição
da mostra Tipografia Brasilis foi realizada em São
Paulo, entre 27 de março e 16 de abril, na Fundação
Armando Álvares Penteado (Faap). O tema dos trabalhos
elaborados exclusivamente para a exposição
de convidados foi "Brasil de corpo e alma".
Segundo Cecília Consolo, curadora do evento,
ele tinha por objetivo oferecer aos visitantes um olhar
sobre a cultura e os costumes nacionais, para revelar
a "cara do design gráfico brasileiro".
Quinze designers gráficos marcaram presença
nessa exposição: André Lima, Buggy,
Cláudio Rocha, Diego C. Credidio, Eduardo Bacigalupo,
Eduardo Braga, Fernanda Martins, Gustavo Piqueira, Luciano
Cardinali, Luiz Mário Verdi, Maria Teresa Lopes,
Priscila Farias, Rubens Matuck, Simone Mattar e Tony
de Marco. Muitos deles participaram da edição
anterior do evento,
o que evidencia o pequeno número dos que se dedicam
ao desenho gráfico no Brasil. No entanto, a grande
quantidade de presentes às palestras revela que,
paulatinamente, a tipografia está se tornando
foco de atenção dos profissionais brasileiros.
Um exemplo desse crescente interesse é o catálogo
com fontes criadas no país, que está sendo
preparado pela Associação
dos Designers Gráficos (ADG).
A associação participou, ainda, da organização
da mostra competitiva. Os trabalhos inscritos foram
submetidos a um júri composto por profissionais
que desenvolvem pesquisa na área de tipografia:
Cláudio Rocha, Eduardo Bacigalupo, Luciano Cardinali,
Priscila Farias e Tadeu Costa. Os jurados revelaram
surpresa com a elevada qualidade dos trabalhos enviados
e optaram pela exposição de todos eles.
Do total, foram escolhidos dez trabalhos, que
melhor correspondiam aos critérios do concurso,
entre os quais criatividade e adequação
ao tema. Na
categoria display design, foram premiados
Crystian Cruz, de São Paulo, com o trabalho
Brasilero (primeiro lugar); Cassiano Saldanha,
também de São Paulo, com Buril (segundo
lugar); e Ericson Straub, de Curitiba, com Pero
Vaz (terceiro lugar). Na
categoria dingbats, o primeiro prêmio
ficou com Skate, de Renato Pacicco Lofti, de
São Paulo; o segundo lugar coube ao trabalho
Street, de Cassiano Saldanha, de São Paulo;
o terceiro lugar foi conferido a Ãgli Feices,
de Marcelo Martinez, do Rio de Janeiro. Alice Maria
Fares Ferreira, de Curitiba, recebeu menção
honrosa pelo trabalho Chop.
Ficou evidente, tanto na exposição como
na mostra seletiva, a tendência de criar fontes
display e dingbats. As primeiras são usadas
basicamente para a composição de títulos
em revistas, livros ou cartazes. Ao contrário
daquelas usadas em textos, as fontes display são
geralmente mais despojadas, menos preocupadas com espaçamento
e legibilidade. Já as dingbats são, genericamente,
ilustrações a respeito de um mesmo tema,
convenientemente distribuídas num formato de
fonte para computadores, facilitando sua visualização
e uso em peças gráficas.
As abordagens do tema proposto foram as mais
diversas - das ilustrações da literatura
de cordel às famosas bananas brasileiras,
passando por grafites e outras manifestações
gráficas no espaço urbano. Esse é
o caso, por exemplo, da fonte Ghentileza Original,
criada pelo designer Luciano Cardinali, em homenagem
ao Profeta Gentileza, andarilho que divulgava suas mensagens
de conteúdo religioso em pilares de pontes e
viadutos do Rio de Janeiro. Para elaborar sua fonte,
Cardinali valeu-se dos inúmeros painéis
espalhados pelo andarilho na cidade.
As palestras funcionaram quase como um contraponto
dos trabalhos expostos. Muito mais preocupados com as
questões técnicas e funcionais das fontes,
os tipógrafos David Berlow e Bruno
Maag lembraram não só a história
da tipografia, mas também seus princípios
conceituais.
Em tom informal, o norte-americano
Berlow contou sua trajetória profissional,
que se confunde com os últimos 25 anos da história
da tipografia. Maag, suíço radicado
na Inglaterra, mostrou-se um aficionado por fontes.
Começou sua carreira como aprendiz de tipógrafo
e estudou na Escola de Design de Basiléia. Dentre
as diversas fontes institucionais desenvolvidas por
ele, destacam-se as da Hewlett Packard, Oxford University
Press, The New Yorker, Reuters e British Telecom. Muito
mais radical que Berlow, Maag se disse cansado da "destruição
das fontes", tão típica da tipografia
rabiscada e suja da última década. "As
pessoas parecem amedrontadas pela precisão",
afirmou. Ambos concordam que o grande desafio dos
tipógrafos é, agora, a visualização
e a legibilidade das fontes nos monitores dos computadores.
Tudo indica que, em breve, os designers, que hoje acabam
convertendo seus textos para imagens, terão maiores
recursos para compor suas páginas.
O contraste entre a produção nacional
e o refinamento técnico revelado pelos convidados
estrangeiros é denunciador da ausência
de cursos especializados em tipografia no Brasil. Faz
lembrar que a máxima "É preciso conhecer
as regras para questioná-las" continua mais
verdadeira do que nunca. Nossa criatividade - ou "brasilidade"
- ganhará força e respeito internacionais
quando embasada na técnica, que, queiramos ou
não, é parte intrínseca da tipografia.
Texto resumido a partir de reportagem
de Paulo Moretto
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 255 Maio 2001
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