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Depois
de muito tempo em que os designers falaram praticamente
sozinhos, os últimos dez anos constituíram o período
de maior aproximação com a indústria. Essa situação
não é apenas brasileira. A tecnologia avançou de tal
forma recentemente que igualou a qualidade de funcionamento
e o preço dos produtos, acentuando o papel do desenho
como “único diferencial que tem importância”, como definiu
a revista Time em reportagem de março de 2000 sobre
o renascimento internacional do design.
No Brasil, contudo, a liberação das importações trouxe
contornos que acentuaram ainda mais essa “necessidade”
de investimento em projeto. Até os anos 80, o design
se restringia a alguns segmentos, especialmente o de
móveis (e, entre esses, os de escritórios) e o de luminárias,
e na faixa de consumo de elite. Foi essa elite que se
encantou com os produtos estrangeiros, levando muitas
indústrias do segmento a preferir a importação, com
a eliminação ou redução drástica dos investimentos em
design próprio.
Ao mesmo tempo, o design se espalhou por outros setores
de produção e outras faixas de consumo. O sonho
de tornar produtos com bom projeto acessíveis a várias
classes sociais - que movera nos anos 60 pioneiros como
Michel Arnoult, Zanine Caldas, Geraldo de Barros e outros
- finalmente começou a ser atingido. O Plano Real, de
1994, trouxe novo panorama de consumo para as classes
C e D. Ao público que até então só comprava tanquinho
sem qualidade, a Mueller Eletrodomésticos, de
Santa Catarina, ofereceu primeiro a lavadora Nina
e depois o Pop Tank, ambos com design do escritório
Chelles & Hayashi, de São Paulo.
A Tigre, fabricante de tubos e conexões de PVC,
recorreu à Keenwork Design para desenvolver a caixa
de descarga e uma linha de assentos sanitários para
a classe D. Ainda nessa faixa popular, o segmento de
móveis foi particularmente rico, com exemplos como o
da Universum, do Rio Grande do Sul, onde atuam
Bernardete Brandão e Alfredo Farné; o da Rudinik,
em Santa Catarina, onde Luciano Deviá desenvolveu uma
linha para exportação; e da Super Móveis, rede de varejo
mineira que ganhou mercado ao contratar jovens recém-formados
pela Fuma.
A indústria da linha branca, que se internacionalizou
no período, conseguiu impor ar local ao design, mantendo
as particularidades regionais. O departamento de design
da Multibras não foi engolido pelo da Whirpool;
ao contrário, exportamos projeto e profissionais para
outros países latino-americanos e até para a Índia.
A Electrolux não veio com tudo pronto da Suécia,
soube manter e até mesmo ampliar as funções da equipe
da Prosdócimo.
Em veículos - área em que só tínhamos “carroças”, na
frase bombástica de Fernando Collor -, o design teve
papel crucial na expansão da indústria de carrocerias
de ônibus (Marcopolo, Busscar); nos automóveis,
ultrapassou-se a costumeira definição dos interiores
para o início da exportação de soluções (caso do Corsa,
da GM). O design se expandiu muito também na área de
equipamentos para o hábitat.
A semente de uma estética contemporânea - plantada em
revestimentos têxteis pela Cia. de Tapetes Ocidentais
e nos cerâmicos pela Oficina Cerâmica Terra -
espalhou-se por outras empresas. E se antes era preciso
freqüentar “lojas de design” para encontrar objetos
bem resolvidos, nos anos 90 bastou ir ao supermercado,
mesmo a gôndolas prosaicas como a de biscoitos, onde
se pode encontrar a linha de cookies da Bauducco,
cuja aparência de “biscoito da vovó” foi milimetricamente
concebida pela equipe da 10 Design, e até a de produtos
de limpeza, onde brilham as vassouras da Bettanim.
Outra revolução da década que passou está nos materiais.
O plástico, em suas inúmeras variações (policarbonato,
propileno e tantos outros), expandiu-se enormemente
e ganhou novas propriedades, como a translucidez e a
transparência, tão bem exploradas no iMac, de
1998, talvez o maior ícone dos anos 90 no cenário internacional.
A preocupação ecológica, de quase inexistente
nos anos 80, passou a ser uma das grandes norteadoras
do projeto na década de 90. O que é mais ecológico,
plástico ou madeira? E quanto à madeira, a reflorestada
ou a madeira alternativa da Amazônia? A polêmica tomaria
páginas e páginas, ainda mais enquanto a madeira produzida
de manejo sustentável ainda não se espalha - o que deve
ocorrer nesta década, tornando provavelmente o selo
verde indispensável na compra de objetos de madeira.
Reciclagem passou a ser uma palavra de ordem. A vassoura
da Bettanim usa o plástico PET, aquele das garrafas
de refrigerante, reprocessado.
Nido Campolongo fez gato-sapato dos papéis, reutilizando,
reciclando e reaproveitando toda a sorte desse material
plural. Outra prática corrente do período foi retirar
um material de um contexto para reutilizá-lo em outro,
dando-lhe com isso nova vida. Os irmãos Campana, com
sua febril pesquisa de materiais, especialmente os “pobres”,
“feios” e desvalorizados, personificaram como ninguém
essa postura transformadora. Travessas de plástico,
frascos de Catupiry, utensílios domésticos, garrafas
de vidro viraram componentes de luminárias pelas mãos
de designers como Júlio Sannazzaro e Valter Bahcivanji.
A opção é deslocar da função inicial tanto coisas já
usadas, como o tambor de máquina de lavar que
Flávio Verdini transformou em pufe, quanto componentes
industriais, como as argolas de plástico que Bahcivanji
usou no tapete Marolinha e as fôrmas de pizza
que os Campana empregaram em sua mesa inflável.
Os novos materiais - não só os plásticos, mas também
outros, como o MDF - libertaram os objetos das
formas angulosas e rígidas para instaurar as curvas
como uma característica marcante da década. Os materiais
sintéticos permitiram ainda a explosão das cores - o
que já era uma tradição da cultura visual popular brasileira,
mas que surge nos anos 90 como tendência internacional,
a começar pelas “cores de chiclete” preconizadas
pelo iMac.
E muitos segmentos absorveram o comportamento da indústria
da moda de variar cores a cada estação, ou ao
menos a cada ano. Aliar cores e plasticidade serviu,
em muitos casos, para incorporar pitadas de humor aos
objetos. Assim, o epíteto “a forma segue a função” foi
substituído por outros como “a forma segue a emoção”
ou “a forma segue a diversão”.
“Amigável” foi um novo adjetivo: copiado diretamente
do inglês “friendly” e cunhado na indústria de informática,
migrou para a idéia de que os objetos devem estabelecer
com seus usuários uma relação de camaradagem e afeto.
“Amigável ao usuário” quer dizer também um projeto afinado
com as diretrizes do “design universal”, ou seja, que
possa servir ao maior número de pessoas, mesmo as que
estão distantes do padrão médio - os muito gordos e
os muito magros, os idosos e as crianças, as pessoas
com diferentes graus de habilidade (locomotora, de visão,
de audição etc.).
O Ligeirinho e vários outros projetos de design
urbano de Curitiba são exemplares dessa preocupação
de não criar barreiras à circulação de pessoas portadoras
de deficiências. Exemplares também são os projetos de
José Carlos Bornancini e Nelson Petzold, a dupla gaúcha
na ativa desde os anos 60, que fez, por exemplo, a tesoura
Softy, da Zivi-Hercules, de 1993, adequada para
destros e canhotos.
Em anos de intensa globalização, houve simultaneamente
forte busca de identidade cultural, como se a
nova onda trouxesse em seu bojo o desejo da particularidade,
a necessidade de encontrar raízes e pertinências.
Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci, de São Paulo; Maurício
Azeredo, em Goiás; os participantes do Grupo Mineiro
de Design, em Belo Horizonte; Ana Luísa e Maria Cristina
Cuervo, no Rio Grande do Sul, são exemplos dessa procura
nos móveis, Arte Nativa Aplicada e Goya Lopes nos tecidos,
Guinter Parschalk em luminárias.
Novidade total da década foi a aproximação entre
designers e artesãos. A tecelagem comandada por
Renato Imbroisi no sul de Minas; o projeto Mão Gaúcha,
no Rio Grande do Sul, capitaneado por Heloísa Crocco;
o Mãos de Minas, os trabalhos de Lars Diederichsen
e Fabíola Bérgamo no Distrito Federal e em Tocantins;
e os de Lia Mônica Rossi e José Marconi no Nordeste,
especialmente na Paraíba, são alguns dos melhores na
busca de aproximar conhecimento secular de técnicas
que estavam ameaçadas de desaparecimento, amparados
por instituições como o Sebrae e o Comunidade Solidária.
Como se vê por todos esses exemplos, a atividade
profissional saiu do eixo Rio-São Paulo para se
espalhar pelo território nacional, embora com menor
força ainda no Centro-Oeste e na Amazônia. Em alguns
casos, foi uma reconquista - Pernambuco, por exemplo,
onde Aloísio Magalhães criou o Gráfico Amador
na década de 50, retomou com o Salão Pernambucano
de Design, de 1998, a intenção de vigor e afirmação,
mostrando nomes como Janete Costa, Clementina Duarte,
José Roberto Peixe e Neide Câmara.
Com tantas conquistas internas, houve de lambuja um
reconhecimento externo. Fernando e Humberto
Campana foram os primeiros brasileiros a ter uma
“quase exclusiva” (dividiram o espaço com o alemão Ingo
Maurer) exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York,
e se tornaram figurinhas carimbadas do circuito internacional.
O ventilador Aliseu, desenvolvido originalmente
para a Singer pela NCS Design Rio, transformou-se
num dos produtos-símbolos da década e ganhou o disputado
prêmio de design que é concedido anualmente na Feira
de Hannover, na Alemanha.
Oswaldo Mellone, da MHO, venceu duas vezes o certame
com dois diferentes modelos de impressoras de cheque
para a Perto/ Digicon, do Rio Grande do Sul.
O mesmo Mellone já havia faturado um prêmio da revista
norte-americana I.D., com a cadeira de escritório Clipper,
feita para a Probjeto. Brasileiros começaram a ser incluídos
nas edições do Design Yearbook e em exposições
promovidas no exterior, como a mostra de design de Verona,
na Itália, e a Bienal de Saint Etienne, na França. Melhor
ainda, começaram a ser produzidos lá fora, como é o
caso de Giorgio Giorgi Jr. e Fábio Falanghe, que tiveram
uma luminária de sua autoria produzida durante
alguns anos pela Artemide, da Itália.
Para um país que começou a década como um “patinho feio”
do cenário internacional, o balanço, como se vê, é mais
do que promissor.
Texto resumido a partir de artigo de Adélia Borges
Publicado originalmente em PROJETODESIGN
Edição 252 Fevereiro 2001
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