O autor partiu então para uma solução que, em tom brincalhão, denomina antropofagia arquitetônica: a nova edificação não toma o lugar da outra, mas a envolve com seu corpo - o antigo quiosque sobrevive, metamorfoseado, nas áreas de cozinha/jantar, o que permite a ligação com a história do Antigo Testamento segundo a qual Jonas, por castigo divino, viveu por por três dias e três noites no interior de um grande peixe. Em boas condições, a estrutura da cobertura do abrigo foi transformada em piso do estar íntimo, no pavimento superior.
Externamente, os materiais são bastante simples: tijolo maciço aparente e áreas envidraçadas encaixilhadas em perfis metálicos brancos; na cobertura, telhas metálicas ancoradas em estrutura montada com toras de eucalipto. Mesmo com essa parcimônia de materiais - e também com algumas dificuldades quanto à qualidade da mão-de-obra local -, Meotti criou um desenho que atrai o olhar, uma vez que tanto as superfícies sólidas quanto as transparentes são dispostas de forma não linear, criando ângulos e variações inesperadas.
Nota-se certa continuidade de linguagem em relação ao projeto do clube de campo de Antônio Prado. A casa em Ipê também mostra - ainda que com mais intensidade – a intencional confusão entre interior e exterior. “A idéia é fazer quem está dentro da moradia perceber o bosque de araucárias e os açudes invadindo o espaço”, justifica o arquiteto. Uma vez que se trata de uma residência rural, não houve a preocupação de favorecer a privacidade. Também por esse motivo, na organização interna a edificação é fluida, com o mínimo de divisões. À noite, iluminada, em meio à escuridão circundante, lembra uma solitária lanterna.
Outra leitura possível para a casa é a de um barco ancorado, mas pronto a navegar em seu oceano particular (os açudes) - as janelas do tipo escotilha que vazam as duas paredes reforçam essa leitura. Jogado ao mar em meio a uma tempestade, o Jonas da Bíblia foi engolido e depois, por desígnio divino, vomitado em uma praia. Para o Jonas de Ipê, no entanto, são mais adequados os versos da canção “Mestre Jonas”, gravada por Sá, Rodrix e Guarabyra: “Dentro da baleia a vida é tão mais fácil;/ nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas;/ quando o tempo é mau, a tempestade fica de fora;/ a baleia é mais segura que um grande navio”.
Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 341 Julho de 2008 |