Geder Meotti
Residência, Ipê, RS
Plantas, cortes e fachadas
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  Janelas do tipo escotilha vazam a superfície maciça das paredes laterais
 
Casa antropofágica engole, mas não devora antigo abrigo
Tomando como ponto de partida uma construção preexistente na área rural de Ipê, Geder Meotti desenvolveu o projeto de uma residência, adotando uma solução que ele define como antropofagia arquitetônica. O conceito se justifica: o volume anterior foi engolido pela nova moradia, mas sem ser devorado por ela. Pode-se falar ainda em ressonâncias bíblicas: assim como Jonas, profeta cristão que teria sobrevivido no interior de um grande peixe, o quiosque habita as entranhas da edificação maior.

Ipê, localizada no interior do Rio Grande do Sul, a cerca de 190 quilômetros de Porto Alegre, é vizinha de Antônio Prado, município que reúne a maior parte da produção do arquiteto Geder Meotti - por exemplo, a sede campestre do Clube Esportivo e Recreativo Pinheiros. Numa propriedade situada próximo do limite entre as duas cidades foi implantado o segundo projeto rural desenvolvido por Meotti. E, apesar do programa residencial, nota-se nele a retomada de certos elementos do trabalho anterior.

A casa fica em um sítio, para onde o proprietário - um médico - pretendia se mudar. No lote havia uma pequena construção - “um quiosque de 6 x 6 metros, com cobertura em quatro águas, churrasqueira, forno e fogão campeiro”, na descrição de Meotti -, a partir da qual o projeto se desenvolveu. A proposta, segundo o arquiteto, era economizar e aproveitar o que fosse possível. Apesar de o bloco existente não ter maior interesse, sua localização proporcionava ótimas vistas para os açudes e um bosque de araucárias.

 
Por se tratar de casa implantada em meio rural, não houve a preocupação de preservar a privacidade dos ocupantes
 
O tijolo maciço aparente é parte da composição da casa, implantada na zona rural de Ipê
 
  Na face voltada para os açudes, a vedação envidraçada traz a paisagem para o interior da casa
 

O autor partiu então para uma solução que, em tom brincalhão, denomina antropofagia arquitetônica: a nova edificação não toma o lugar da outra, mas a envolve com seu corpo - o antigo quiosque sobrevive, metamorfoseado, nas áreas de cozinha/jantar, o que permite a ligação com a história do Antigo Testamento segundo a qual Jonas, por castigo divino, viveu por por três dias e três noites no interior de um grande peixe. Em boas condições, a estrutura da cobertura do abrigo foi transformada em piso do estar íntimo, no pavimento superior.

Externamente, os materiais são bastante simples: tijolo maciço aparente e áreas envidraçadas encaixilhadas em perfis metálicos brancos; na cobertura, telhas metálicas ancoradas em estrutura montada com toras de eucalipto. Mesmo com essa parcimônia de materiais - e também com algumas dificuldades quanto à qualidade da mão-de-obra local -, Meotti criou um desenho que atrai o olhar, uma vez que tanto as superfícies sólidas quanto as transparentes são dispostas de forma não linear, criando ângulos e variações inesperadas.

Nota-se certa continuidade de linguagem em relação ao projeto do clube de campo de Antônio Prado. A casa em Ipê também mostra - ainda que com mais intensidade – a intencional confusão entre interior e exterior. “A idéia é fazer quem está dentro da moradia perceber o bosque de araucárias e os açudes invadindo o espaço”, justifica o arquiteto. Uma vez que se trata de uma residência rural, não houve a preocupação de favorecer a privacidade. Também por esse motivo, na organização interna a edificação é fluida, com o mínimo de divisões. À noite, iluminada, em meio à escuridão circundante, lembra uma solitária lanterna.

Outra leitura possível para a casa é a de um barco ancorado, mas pronto a navegar em seu oceano particular (os açudes) - as janelas do tipo escotilha que vazam as duas paredes reforçam essa leitura. Jogado ao mar em meio a uma tempestade, o Jonas da Bíblia foi engolido e depois, por desígnio divino, vomitado em uma praia. Para o Jonas de Ipê, no entanto, são mais adequados os versos da canção “Mestre Jonas”, gravada por Sá, Rodrix e Guarabyra: “Dentro da baleia a vida é tão mais fácil;/ nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas;/ quando o tempo é mau, a tempestade fica de fora;/ a baleia é mais segura que um grande navio”.


Texto resumido a partir de reportagem
de Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 341 Julho de 2008

 
A estrutura do quiosque existente transformou-se no piso do pavimento superior
 
Escada de madeira que dá acesso ao mezanino
 
O mezanino abriga amplo estar íntimo
  Geder Meotti formou-se em 1989 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde 1990, tem escritório próprio em Antônio Prado, RS
 
À noite, em meio à escuridão circundante, a moradia é uma lanterna solitária
 
Janelas do tipo escotilha vazam a superfície maciça das paredes laterais
 
  As paredes em ângulos inesperados já haviam sido exploradas pelo autor em projeto rural desenvolvido no município vizinho
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