Álvaro Siza - Parte 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6/6
Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS
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  Área da equipe, fosso inglês e balanço do volume do café, vistos a partir da biblioteca
 
Chegou o dia: “O espaço é lindo”

Sexta-feira, dia 30. O sol, finalmente, apareceu nos céus de Porto Alegre. Às 9h30, Siza tomava café-da-manhã no hotel, onde, de quebra, falou a PROJETO DESIGN. Durante a entrevista, encontrou editores de revistas especializadas, que o cumprimentaram rapidamente. Atendeu na seqüência uma jornalista do Chile e outra da Argentina. Dentro de sua aparente tristeza, parecia feliz.

Jornalistas retardatários - muitos só conseguiram chegar a Porto Alegre pela manhã - visitavam o museu, que estava radiante. Nada que lembrasse o dia em que foi lançada a pedra fundamental, em 3 de junho de 2002. Em vez de uma pedra propriamente dita, foi utilizado um cubo de concreto, com cerca de 50 centímetros de lado e uma tonelada de peso. O espaço escolhido para sedimentar a “pedra de concreto” foi abaixo do local em que depois se construiu a escada, junto do elevador principal. “Sob o aspecto estrutural, é o ponto de maior carga do museu”, relata Canal, que, como bom engenheiro que é, filosofava sobre a relação entre as cargas estruturais e simbólicas de um prédio. Dentro da fôrma do bloco ainda não concretado, d. Maria depositou uma réplica em bronze do pincel Tigre, de cerdas grossas, com que seu marido assinou Solidão, seu derradeiro óleo. Em seguida, a caixa foi preenchida por concreto. “Foi como passar o bastão em uma corrida; não no que diz respeito a produzir, mas sim para conservar e estudar a obra de Iberê”, relata Justo Werlang. “Iberê foi um dos grandes nomes da cultura nacional. No Rio Grande do Sul, talvez demore 200 anos para aparecer outra personalidade como ele. Naquele dia, tive a impressão de que os astros estavam nos ajudando”, lembra Gerdau.

Agora, a poucas horas da inauguração, estava tudo pronto. Após o almoço, às 14h, Siza encontrou-se no lobby do Sheraton com Canal e Nunes da Silva, entre outros. Em seguida, chegou um grupo de amigos do arquiteto, vindos a Porto Alegre para a cerimônia. Canal tirou fotos do grupo e, às 14h30, Siza subiu para o quarto, para descansar. No meio da tarde, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, aproveitando a estada na cidade para participar da inauguração, encontrou-se por 53 minutos com a governadora Yeda Crusius no Palácio Piratini, na praça da Matriz.

 
A biblioteca é iluminada pela abertura para o fosso inglês
 
O projeto de sinalização também foi feito pelo arquiteto
 
  Detalhe das cadeiras do subsolo
 

Às 17 h, o átrio da fundação já estava repleto, com cerca de 200 pessoas. O grupo reunia os envolvidos diretos na obra e na fundação (todos com um broche na lapela, uma bicicleta traçada por Iberê que é o símbolo da instituição), seus convidados, políticos e autoridades. “O espaço é lindo”, impressionou-se a radiante deputada federal Manuela d’Ávila (PC do B/RS). Siza trazia na mão, como sempre, um bloco de desenho, do qual destacou algumas folhas e presenteou uns poucos escolhidos.

O restante dos convidados - mais de mil - aguardava na garagem subterrânea o início da solenidade. Às 18h20 já estavam todos no mesmo recinto, que sofás, buffets e iluminação alaranjada fizeram esquecer tratar-se de uma área para estacionamento. Primeiro, ouviu-se o Hino Nacional, cantado pelo coral de crianças da associação Pão do Pobre, mantida pela Gerdau. Zigomar, 12 anos, achou o museu “legal”, e divertiu-se nas rampas de Siza. Conduzidos pelo maestro Renato Donini, os meninos tiveram a apresentação acompanhada discretamente pelo ministro da Cultura, que representava o presidente Lula na ocasião. “Qual é o tom maestro: fá maior?”, perguntou Gil ao regente, ao final. Em um emocionante discurso de 34 minutos, o ministro lembrou o “Porto - português - veio desaguar aqui a nossa luso-tropicalidade”. Com a gravata colorida destacando-se sobre a camisa bege e o terno preto, Gil ressaltou ainda a parceria público-privada e a importância do projeto para o parque público à beira do Guaíba.

Certamente, naquela hora, o ministro não se lembrou do episódio ocorrido em 2004, quando o governo brasileiro chamou Álvaro Siza para projetar outro museu (também com patrocínio da Gerdau), mas em Congonhas do Campo, MG, para abrigar os 12 profetas de pedra-sabão criados por Aleijadinho. O ambiente das cidades históricas mineiras já seria amigável para o arquiteto, mas a afinidade ia além: Siza nasceu em Matosinhos, cidade portuguesa que está na origem do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, obra de Aleijadinho. Naquela ocasião, o convite para trabalhar no Brasil partiu do arquiteto Marcelo Ferraz, então coordenador do Projeto Monumenta (ligado ao Iphan). “No início de 2004, passei uma semana no Porto estudando com Siza o problema de Congonhas. Ele ficou muito emocionado com o projeto, que iria reconfigurar a colina”, disse Ferraz. Por problemas políticos no Ministério da Cultura, Ferraz se afastou do governo em março e a idéia foi arquivada. “Siza nunca recebeu uma mensagem oficial do governo brasileiro. Tive que ligar e dizer que a coisa não iria seguir”, ele relata. Em seguida, foi realizado um concurso fechado, vencido pelo mineiro Gustavo Penna - coincidentemente, um dos brasileiros mais influenciados por Siza.

Depois Gerdau falou por 15 minutos, terminando por lembrar um bilhete - “que vou emoldurar” -, passado a ele por Siza no dia anterior, durante a coletiva, contendo o verso de Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Depois, discursaram brevemente o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, e a governadora gaúcha. Todos ocuparam o púlpito desenhado por Siza, que ficará no auditório do edifício. Por fim, às 19h24, a faixa simbólica foi cortada pelo ministro da Justiça, Nelson Jobim, por Yeda, Fogaça e Gerdau. No centro, d. Maria Camargo, elegante em seu sobretudo de lã e discreto colar de pérolas.

Assim, a Fundação Iberê Camargo foi aberta a todos. O espaço se revela perfeito para abrigar artes plásticas. Para quem o viu ocupado, as fotos do local vazio hão de parecer bocas banguelas. Nas salas, os quadros impressionantes de Iberê, generosamente dispostos, roubavam a cena; já nas rampas, o enquadramento de Siza para Porto Alegre e o Guaíba era disputadíssimo pelos convidados. O preto predominante das roupas formais contrastava com o branco do prédio e com as cores de Iberê. Às 21h32, Siza e Canal atravessaram lentamente os 150 metros do estacionamento, já quase vazio. No momento em que passavam, os poucos convidados sentados nos sofás laterais notavam sua aproximação. Ao reconhecer o projetista do prédio que ajudou a colocar as luzes do mundo sobre a obra de Iberê Camargo e sobre Porto Alegre, apontavam para os amigos e cochichavam: “Olha lá: é ele!”. Quase incógnito, o arquiteto subiu a rampa de entrada do estacionamento e foi embora.


Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 341 Julho de 2008

 
Vista da circulação do subsolo, junto à entrada do auditório
 
Garagem
 
Croqui
  Formado pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto em 1955, Álvaro Siza colaborou com Fernando Távora até 1958. Entre 1966 e 1969 lecionou na instituição em que se graduou e desde 1976 é professor adjunto de construção na Faculdade de Arquitetura do Porto. Em 1992, Siza recebeu o Prêmio Pritzker
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