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Álvaro Siza - Parte 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6/6
Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS |
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A abertura zenital ajuda a iluminar o átrio e as rampas |
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| Arte total: detalhes e interiores |
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Quinta-feira, dia 29, novamente chuvoso. Às 9h30, no Clos du Moulin, no quinto andar do Sheraton, um correspondente do Público - o maior jornal português -, acompanhado de um fotógrafo da agência estatal de notícias Lusa, entrevistou Siza durante o café-da-manhã. Sentaram no canto direito do restaurante, próximos da janela, Siza trajando terno e sapato pretos e camisa branca. Na entrevista, que saiu com destaque no dia seguinte, ele foi duro com seu país: “Não me dá muita vontade de trabalhar em Portugal”, declarou. Poucas horas mais tarde, desceu os degraus do café da fundação, que fica fora do prédio e estava tomado por jornalistas. No meio do tumulto, cumprimentou rapidamente Gerdau e outros membros da entidade. Em seguida, protegendo-se da garoa, abriu o cortejo rumo ao átrio do museu, que estava preparado para uma entrevista coletiva.
Enquanto os mais de 80 jornalistas se acomodavam, as câmaras de tevê eram posicionadas e os fotógrafos buscavam os melhores ângulos, Siza saiu pela porta lateral, que liga o átrio à doca de carga/descarga, para fumar, acompanhado de alguns assessores. Pela porta simetricamente oposta, a da escada e elevador, minutos mais tarde entrou a viúva de Iberê, Maria Camargo, que estava circulando pelo prédio. Abraçou primeiro Gerdau e em seguida o arquiteto. Na primeira vez que veio a Porto Alegre, já contratado para o projeto, Siza ganhou de d. Maria uma gravura de Iberê, que levou para o Porto. Atrás da bancada desenhada por Siza (para o auditório) e espreitados às costas pela obra Núcleo em expansão (1965), tela exposta em um cavalete, alinhavam-se alguns dos principais personagens desta história: Werlang, Gerdau, Siza, d. Maria, Mônica Zielinsky (uma das curadoras da fundação e coordenadora do catálogo raisonné de Iberê) e Canal. Todos fizeram um breve relato e responderam algumas perguntas.
Quando Werlang, que conduzia o encontro, deu por encerrada a coletiva, Siza novamente buscou a área da doca para fumar outro Marlboro. Enquanto isso, após atender alguns jornalistas, Gerdau saiu pela mesma porta, apressado. Sentou no banco do passageiro do veículo, que saiu rapidamente pelo caminho de brita que rodeia o prédio.
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| O banco curvo foi especialmente desenhado para o átrio |
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Na loja, o destaque é a porta pivotante, que se transforma em divisória |
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Vista do Guaíba a partir do café |
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Atendendo ao pedido da assessora de imprensa da fundação, Siza subiu ao primeiro piso para responder mais algumas perguntas, desta vez para redes de televisão. O cenário era a sala quadrada. Siza apoiou-se na quina do guarda-corpo que divide as três salas e o vazio. No mármore branco grego que dá acabamento ao topo do guardo-corpo, uma única peça em cruz revela o exaustivo detalhamento a que foi submetido o edifício. Em cada canto, rodapé ou soleira, há um detalhe à espera do olhar atento. A mesma intenção de lapidar o todo é percebida na parte. Parece quase uma obsessão do projetista, que pode até irritar arquitetos que não têm a mesma preocupação. Nesse ponto, pode-se dizer que Siza é herdeiro de uma tradição arquitetônica iniciada pelo movimento inglês arts & crafts. William Morris e seus discípulos trabalhavam em reação ao movimento industrial, valorizando o artesanato e a manufatura. Nos projetos deles - e de seguidores de movimentos posteriores, como os orgânicos que tanto influenciaram Siza (Aalto e Wright) - há o mesmo detalhamento minucioso do pormenor e até do mobiliário.
Na Fundação Iberê Camargo, a maior parte dos acessórios e do mobiliário foi desenhada por Siza. São peças de série - fechaduras, luminárias, bancos, cadeiras etc. - fabricadas na Europa. “O câmbio nos favoreceu”, lembra Canal. Até mesmo a sinalização saiu da prancheta do português. Mas foi especialmente para Porto Alegre que ele desenhou o banco curvo, ocupante discreto do átrio. Também aqui um detalhe imperceptível ao visitante comum exemplifica os meandros do detalhamento de Siza: em planta, os dois bancos completam um S, cada qual voltado para um lado; essa seqüência de curvas é complementada pelo desenho da porta da loja (pivotante e curvilínea, quando fechada ela se transforma em uma divisória baixa, permitindo a integração visual) e pelo balcão da recepção de grupos.
Os últimos ajustes eram realizados antes da inauguração. Às 16h12, engenheiras da GAP - empresa lusitana que trabalhou nos projetos complementares - acompanhavam a instalação de uma tomada para a luminária do balcão da recepção, que, em planta, possui desenho em arco que se estreita. No mesmo instante, um assistente de Siza e outra de Canal supervisionavam a colocação do batedor de madeira da porta da entrada. Ecoando Aalto, Siza acredita que a maçaneta da entrada precisa de um desenho original - “é o primeiro contato com o edifício”, afirma. O puxador da peça pivotante, que em parte se encaixa na escada, é um Z sem a perna de baixo. As três rampas externas em balanço, vistas de fora, também lembram um Z. E a curva das rampas internas, vistas na planta, tem desenho de S. Serão uma assinatura velada?
Às 21h25, escoltado por alguns assistentes, Siza fumava sob o abrigo de um sobretudo creme e da marquise externa do Sheraton - chovia e fazia 11 graus. Todos aguardavam Canal para o jantar numa churrascaria simples e tradicional - a Santo Antônio -, localizada a poucas quadras. No mesmo instante, no Clos du Moulin, ocorria um festival de chefs, o evento gastronômico mais aguardado do ano na cidade. Quando o engenheiro chegou para apanhar o arquiteto e sua trupe, os comensais cinco pisos acima degustavam o primeiro prato principal: peito de pato ao molho de maracujá acompanhado de palmito pupunha assado com batatas, preparado pelo badalado Philipe Remondeau. Os privilegiados participantes da orgia gastronômica ouviam desatentamente “My way”, tocada ao saxofone por Luís Fernando Veríssimo (e ainda tiveram direito a canja do pianista Nelson Proença). Calado, como de costume, Veríssimo não emitiu opinião sobre o projeto de Siza. Às duas da manhã, a chuva parou.
Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 341 Julho de 2008 |
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| A mata ao fundo, enquadrada pela abertura |
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No último piso, a iluminação mescla luz artificial e natural por clarabóia |
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| A sala maior possui geometria irregular |
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Formado pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto em 1955, Álvaro Siza colaborou com Fernando Távora até 1958. Entre 1966 e 1969 lecionou na instituição em que se graduou e desde 1976 é professor adjunto de construção na Faculdade de Arquitetura do Porto. Em 1992, Siza recebeu o Prêmio Pritzker |
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Aurtenechea & Perez-Iriondo Arquitectos - Complexo eólico, Osório, RS |
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Álvaro Siza - parte 2/6 - Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS |
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Herzog & De Meuron - Centro cultural, Madri |
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