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Álvaro Siza - Parte 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6/6
Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS |
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No jogo expressivo de Siza, o desenho racional das salas expositivas contrasta com as curvas das rampas |
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| Fortaleza de concreto: técnica construtiva |
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Quarta-feira, dia 28. Álvaro Siza embarcou no vôo 3097 da TAM, rumo a Porto Alegre. Vestia paletó marrom, camisa branca e cachecol - apesar dos 20 graus no Rio, estava preparado para o frio da capital gaúcha. Comprou na livraria do Galeão um livro de política e um exemplar de O Globo. Já na aeronave, sentou-se junto ao corredor, mais ou menos na metade do avião, à direita de quem entra, ao lado de Jorge Nunes da Silva, engenheiro calculista do prédio da fundação. No início do vôo leu o jornal, e adormeceu com o Segundo Caderno no colo, estampado com a foto de Niemeyer e a manchete “Seguindo o seu caminho”, sobre o lançamento da revista do arquiteto brasileiro.
Quando chegou à capital gaúcha, às 12h45, chovia bastante. Enquanto Nunes da Silva pegava as malas, Siza saiu para o hall do aeroporto para fumar. De lá, foi direto para o bairro Moinhos de Vento, onde fica o Sheraton - o melhor hotel da cidade e, desde que foi inaugurado, local de sua hospedagem quando está em Porto Alegre. Fez o check-in e foi conduzido ao apartamento 811, no oitavo andar.
Às 16h24, o aeroporto Salgado Filho fechou devido ao mau tempo. Até a noite, 41 vôos seriam cancelados. Também vindo do Rio, Paulo Sérgio Duarte, um dos curadores da mostra de inauguração, não conseguiu embarcar. O caos aéreo também afetou um astro da tevê portuguesa e amigo de Siza, que veio de Lisboa especialmente cobrir a abertura do museu. Seu vôo, como muitos outros, pousou em Florianópolis. Ele só chegou ao destino no final da madrugada, depois de mais oito horas de viagem em ônibus. À noite, Siza teve um único compromisso: jantou com Canal. |
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| A interligação visual das três salas se dá graças à quina aberta |
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Aberturas enquadram a paisagem |
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O engenheiro, com pós-graduação em arquitetura pela UFRGS, é figura-chave na construção do edifício. Além de participar da escolha do arquiteto e de coordenar impecavelmente a execução da obra, Canal - junto com sua equipe - equacionou uma série de inovações técnicas que a sede da fundação apresenta. Durante toda a construção, ele trabalhou em um barracão com clima de estúdio de arquitetura, num terreno alugado, próximo do canteiro de obras. De lá, sua equipe de engenheiros e arquitetos se comunicava diretamente com o escritório do Porto através de uma intranet, coordenando as mais de mil pranchas de desenhos.
Entre as novidades técnicas da edificação, destaca-se o uso de forma significativa do concreto branco, pela primeira vez no Brasil. Esse tipo de estrutura é confeccionada com cimento branco, agregados claros e armação galvanizada (para evitar a oxidação). Canal se entusiasmou em trabalhar com esse processo inovador. “Somos oriundos de um grupo siderúrgico, mas não estávamos ali para jogar dinheiro fora: o que não fica aparente é em concreto convencional”, ele revela, deixando claro que a novidade tem seu preço. “O museu não tem pilares nem vigas, sua ossatura é monolítica, sem junta de dilatação”, diz o calculista Nunes da Silva. É como “um barco, não tem fundação profunda: é um prédio pesado, que fica sobre a brita”, relata Canal. Tudo o que se vê por fora é estrutura. Com isso, à sua maneira, Siza incorporou ao desenho do museu um dos principais itens do discurso arquitetônico brasileiro: a explicitação da gênese estrutural.
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| Rampas circundam o vazio do átrio |
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Rampas circundam o vazio do átrio |
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Mas não é só pela referência a ícones da arquitetura brasileira, pela materialidade ou pela ênfase estrutural que o projeto se avizinha dos trópicos: há também a questão da escala. Acostumada com o monumentalismo dos prédios clássicos do modernismo nacional, a maior parte dos projetistas brasileiros que têm a oportunidade de conhecer de perto as obras lusitanas de Siza volta com a mesma sensação: o desencanto com a escala diminuta. Uma decepção sem dúvida aumentada pelas imagens em grande angular que recheiam as publicações especializadas. Mas o fato é que quem teve essa impressão não compreendeu as regras do jogo de Siza, que reflete a característica do local nos espaços que produz. Em Porto Alegre, comprova essa tese a espacialidade do vazio interno - generoso em relação ao todo, a reverberar nossa tão alardeada monumentalidade.
Internamente, as paredes e forros são de gesso, o que possibilita a passagem de instalações. O espaço entre o gesso e o concreto forma um colchão de ar, preenchido por lã de rocha, isolante termoacústico. A umidade e a temperatura interna do edifício são monitoradas. As entradas e saídas de ar-condicionado são discretamente posicionadas em vãos baixos e compridos, no rodapé e no forro. Tal como desejava o conselho da fundação, todos os aspectos museográficos foram atendidos de forma eficiente.
O tanque de retenção de água que circunda o subsolo do museu tem condições de, se necessário, absorver índices pluviométricos iguais aos da enchente de 1941, a maior já registrada no Rio Grande do Sul. Isso para proteger o valioso acervo, que será todo instalado no pavimento subterrâneo. Desde que Iberê Camargo morreu, em 1994, seu trabalho passou por grande valorização. E não circula muito. “Uma boa obra dele pode valer até 300 mil dólares”, avalia a marchand Luísa Strina, que dirige a galeria paulistana que leva seu nome, fundada em 1974.
O edifício possui ainda sistema de aproveitamento de águas pluviais - utilizadas nos banheiros, o que gera economia de até 40% - e uma estação de esgoto que trata resíduos sólidos e líquidos. A mata que faz as vezes de pano de fundo do museu - criando o contraste desejado por Siza - recebeu projeto de José Lutzenberger, importante ecologista brasileiro e idealizador da Fundação Gaia, hoje coordenada por sua filha Lara. Dentro da massa arbórea, há 200 metros de trilhas, que podem ser percorridas pelos visitantes.
Um elemento significativo que não constava nem do programa, nem do projeto inicial é a garagem subterrânea para cem veículos. Até o meio do processo, ninguém havia conseguido pensar em uma solução para o problema do estacionamento, difícil de ser realizado junto à via expressa. Até que, em uma das reuniões, Siza apresentou a proposta de instalar o espaço sob a avenida, em área pública. “Isso não será aprovado; não é usual por aqui”, alertou Canal. “Vamos tentar”, Siza respondeu. Depois de longa negociação com a municipalidade, o estacionamento foi aprovado. A fundação o construiu na mesma cota do subsolo do prédio (ao qual é interligado) e repavimentou quase 500 metros da avenida.
Texto resumido a partir de reportagem
de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 341 Julho de 2008 |
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| O átrio interliga salas de exposição e térreo |
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Formado pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto em 1955, Álvaro Siza colaborou com Fernando Távora até 1958. Entre 1966 e 1969 lecionou na instituição em que se graduou e desde 1976 é professor adjunto de construção na Faculdade de Arquitetura do Porto. Em 1992, Siza recebeu o Prêmio Pritzker |
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veja também |
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Álvaro Siza - Parte 5/6 - Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS |
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Álvaro Siza - Parte 4/6 - Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS |
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Álvaro Siza - parte 2/6 - Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS |
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Álvaro Siza - parte 1/6 - Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS |
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Herzog & De Meuron - Centro cultural, Madri |
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Isay Weinfeld - Edifício residencial, São Paulo |
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