Herzog & De Meuron
Centro cultural, Madri
Plantas, cortes e fachadas
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  Para iluminar os pisos mais altos, placas de aço apresentam furos irregulares
 
Jardim tropical cobre empena da caixa de tijolos suspensa
Acirradas polêmicas foram despertadas pelo recém-inaugurado CaixaForum, o centro social e cultural da Obra Social La Caixa, projetado por Jacques Herzog e Pierre de Meuron e situado no Miracle Mile de Madri - o coração de uma densa malha de atividades culturais. O desafio era dar novo uso à pequena usina desativada, construída em 1900 pelo arquiteto madrilenho Jesús Carrasco Muñoz y Encina e desenhada como uma compacta caixa fechada de tijolos aparentes, considerada de valor patrimonial.

Vários problemas tinham que ser resolvidos para responder ao programa solicitado pelo contratante. Primeiro, era preciso ampliar o espaço expositivo do prédio, de 2 mil metros quadrados para 10 mil. A solução foi adicionar um volume cego de dois andares, com pesados painéis de aço enferrujado dando continuidade à superfície da fachada e mantendo o perfil tradicional da cobertura de duas águas. Auditórios, salas de reuniões, serviços anexos e um pequeno estacionamento ocupam o subsolo.

 
Placas de aço corroídas com furos irregulares
 
  Escada de acesso ao centro cultural
 

Também era necessário dar visibilidade urbana ao centro cultural, já que o prédio ficava oculto entre as estreitas ruas do centro histórico, a um quarteirão do Paseo del Prado, um dos principais eixos viários da capital. E, ao mesmo tempo, se pretendia identificar sua presença em um contexto de grande intensidade urbanística e arquitetônica, que resume duas etapas históricas fundamentais da cidade: a Madri do Século de Ouro e a da Ilustração. No espaço de poucas centenas de metros se concentram a controversa ampliação do Museu do Prado, realizada por Rafael Moneo (também autor da terminal ferroviário de Atocha), e o Jardim Botânico. Nessa área se incluem o Museu de Arte Thyssen-Bornemisza (também de Moneo) e o Museu Nacional Rainha Sofia, monumental prédio neoclássico dilatado recentemente pelo anexo de Jean Nouvel, com uma gigantesca cobertura em balanço que cria um megaespaço público.

Como o pequeno prédio, situado em terreno de 2,5 mil metros quadrados, podia concorrer com esse conjunto de eventos edilícios? Os arquitetos tinham que procurar uma boutade urbanística que sobrepusesse o espaço público à identidade arquitetônica da velha usina. Foi derrubado o posto de gasolina na frente do Paseo del Prado para criar uma praça seca de 2,5 mil metros quadrados, que permite a perspectiva do prédio a partir da avenida e recebe esculturas ao ar livre. Mas as duas propostas totalmente originais foram o jardim tropical vertical de 460 metros quadrados, implantado na empena do prédio que delimita a praça; e a eliminação do embasamento da caixa de tijolos, que fica praticamente suspensa no ar e libera o térreo para a circulação dos pedestres em uma espécie de praça coberta, onde a escada principal leva à recepção localizada no primeiro andar.

Este foi o alvo principal das críticas dos conservacionistas, que acharam heterodoxa demais a solução dada por Herzog & De Meuron, não somente porque supostamente deformou o prédio histórico - na verdade se definiu a preservação das fachadas, não do edifício em sua totalidade -, mas também pelo alto custo da sofisticada estrutura necessária para sustentar os panos de tijolos e gerar os balanços que praticamente ocultam os apoios concentrados no núcleo central de circulação, que contém escadas e elevadores. Na realidade, os arquitetos aplicaram neste centro cultural os conceitos já desenvolvidos em outros exemplos de integração de novas funções a prédios industriais desativados, em que formas contemporâneas predominam sobre a estrutura original: a caixa de luz adicionada à cobertura da Tate Modern, em Londres; as fissuras verticais na fachada de tijolos do museu Küppersmühle, em Duisburg; e o recente projeto da Filarmônica do Elba, novo volume de vidro facetado superposto ao armazém de cacau no porto de Hamburgo.

Outro elemento que reiteradamente procura identificar e expressar a textura dos materiais é a superposição das pesadas placas de aço enferrujado, na parte superior do centro cultural. Na superfície cega do novo volume, de formato irregular, os arquitetos se abstiveram de trabalhar com elementos gráficos ou volumétricos (como aconteceu nos muros de pedra da vinícola Dominus, em Yountville, e nas leves superfícies metálicas perfuradas do Museu de Young, em São Francisco, ambos nos EUA). Somente no último andar, onde estão localizados o restaurante e a administração, as placas apresentam furos irregulares - “erosões expressivas”, segundo Luis Fernández-Galiano -, que permitem a visão da cidade. Os interiores das salas configuram espaços tradicionais de exposição; um volume metálico facetado, que começa no teto do térreo, desenvolve-se ao longo do primeiro lance da escada e define o espaço público da recepção.

É sem dúvida um elemento de atração popular o jardim vertical, que não constitui uma simples superfície verde, mas um verdadeiro ambiente tropical, composto por 15 mil plantas de 250 espécies. Segundo seu criador, o famoso botânico francês Patrick Blanc, que já realizou experiências semelhantes em Paris, Nova York, Bangcoc e Nova Délhi, a proposta foi desenhar uma pintura viva, uma imagem plástica natural em constante transformação, já que as múltiplas plantas florescem nas diversas estações do ano. A implantação requereu uma complexa estrutura metálica com feltro de PVC, distante um metro da fachada do prédio, com um sistema automático contínuo de irrigação.

Desde sua inauguração, o CaixaForum conquistou grande popularidade, tanto pela originalidade arquitetônica quanto pela diversidade de atividades culturais e artísticas que organiza cotidianamente. E o fato de estar sempre aberto e não cobrar ingressos o faz atrativo para a juventude madrilenha, que se identifica com a inventividade da edificação.


Texto resumido a partir de reportagem
de Roberto Segre
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 340 Junho de 2008

 
Vista, a partir do interior, das placas de aço corroídas com furos irregulares
 
O jardim tropical, com 460 metros quadrados, abriga cerca
de 250 espécies
 
Esquema do jardim tropical
  O escritório suíço Herzog & De Meuron foi criado em 1978 e tem como titulares Jacques Herzog e Pierre de Meuron. Ganhadora do Pritzker em 2001, a dupla é responsável por projetos como a loja da Prada em Tóquio e o estádio olímpico de Pequim
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